Ela Resolve Só Respirar

Havia dias em que o tempo parecia uma engrenagem emperrada, arrastando-se entre os ponteiros e os passos apressados da cidade. Os ônibus chegavam atrasados, os semáforos piscavam indiferentes, e as vitrines ofereciam desejos que ninguém realmente precisava. Ela, porém, cansara-se da pressa. Não queria correr atrás de nada nem ser alcançada por ninguém.

Era uma tarde comum, e ainda assim estranhamente solene, quando tomou a decisão mais simples e mais rara: resolveu só respirar.

O ar entrou lento, como se fosse vinho decantado. Encheu-lhe os pulmões e, de algum modo, também os vazios que carregava no peito. Um vazio que não tinha nome, mas que pesava como mala esquecida em algum canto da sala. Respirar, então, foi como abrir as janelas depois de muito tempo fechadas: entrou luz, entrou pó, entrou também a leveza do que não se controla.

Na rua, o cotidiano continuava com sua orquestra improvisada: buzinas desafinadas, vozes misturadas, passos batendo em diferentes compassos. Uma criança soluçava, pedindo colo. Uma senhora atravessava devagar, apoiada na bengala, indiferente à impaciência dos carros. Tudo seguia igual — e, no entanto, dentro dela, era como se uma pequena revolução tivesse acontecido.

Não precisava decifrar sentido algum; bastava estar ali, ocupando o espaço que lhe pertencia entre o chão e o céu.

Sentiu-se árvore: raízes invisíveis cravadas na calçada e galhos invisíveis estendidos ao alto. O vento que passava lhe lembrava que era feita da mesma matéria que move as nuvens. Respirar, então, era também pertencer — a tudo e a nada.

Naquele instante, lembranças vieram como sombras leves. O abraço do pai que já não estava, a primeira bicicleta, o riso que um dia partira sem aviso. Tudo surgia e se desfazia no mesmo ritmo do ar entrando e saindo, como se a memória também respirasse.

Não era fuga, tampouco coragem. Era apenas a suspensão de qualquer batalha. Por instantes, o corpo não lhe exigia mais respostas. O coração não cobrava. A memória não feria. Respirar era deixar o tempo dissolver-se como açúcar na água.

Ao redor, ninguém percebia. Um homem passou apressado, olhando o relógio; uma mulher ajeitou as sacolas, tropeçando no salto; um adolescente corria para não perder o ônibus. Ninguém jamais saberia que, naquela tarde, sem espetáculo nem testemunhas, uma mulher havia descoberto a eternidade escondida no ato mais banal: inspirar, expirar.

E quando o ar saiu de dentro dela, lento e macio, foi como se o mundo tivesse suspirado junto.

 

Silvia Marchiori Buss

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