Dias Respirados
Era setembro no calendário da vida dela. Não o setembro real, feito de folhas secas e promessas de primavera, mas um setembro íntimo, marcado pelo cansaço de ter atravessado tantos agostos pesados.
Decidiu caminhar. Não para chegar a um lugar específico, mas para chegar até si
mesma — um destino que sempre adiara, ocupada em cumprir compromissos que
raramente eram dela, em sustentar expectativas que a vida lhe depositava como
se fossem dívidas.
O caminho não era diferente
de tantos outros: ruas comuns, pedras gastas pelo tempo, bancos de praça onde o
silêncio repousava. Mas a cada passo, ouvia o som de páginas sendo viradas,
como se andasse por dentro de um calendário antigo. O chão estalava como papel
amarelado, e o vento trazia cheiros de meses esquecidos.
Havia um janeiro luminoso, ainda acreditando em milagres. Um abril áspero, que
lhe roubara alguém. Um julho de risos demorados, quando a noite parecia
infinita. Cada lembrança vinha como um sopro, breve e impreciso, mas suficiente
para lhe mostrar que nenhum mês se perdera por completo: todos continuavam
nela.
O coração batia compassado,
como ponteiro de relógio que se recusa a correr. Cada batida parecia dizer:
“estás chegando”. Ela não corria. Já havia corrido demais em outros tempos,
atrás de trens que partiam, de pessoas que não ficavam, de sonhos que se desfaziam
antes do amanhecer. Agora apenas caminhava.
E, nessa cadência lenta,
percebeu que o reencontro não era um ponto final. Era uma sucessão de vírgulas,
como os dias que se empilham no calendário sem nunca se explicarem totalmente.
Não era uma versão definitiva de si que buscava. Era um mosaico de todas as
versões que ficaram pelo caminho:
a menina que colava figurinhas e sonhava com castelos de areia;
a jovem que acreditava em amores eternos;
a mulher que perdeu e ganhou tantas vezes que já não sabia quantas vidas havia
vivido dentro da mesma pele.
Sentou-se por um instante
num banco de praça. As folhas dançavam no ar como se fossem lembranças
desprendidas de algum outono distante. Ali, entendeu — não como conclusão, mas
como pressentimento — que chegar até si era apenas seguir em movimento, permitindo
que cada pedaço de vida viesse ao seu encontro, sem hierarquias entre o que
doía e o que iluminava.
O calendário dela já não
era de dias riscados, mas de dias respirados. Cada página virada pelo vento era
mais uma prova de que nada se perde quando se caminha com os olhos abertos.
E assim, sem precisar
anunciar nada ao mundo, continuou andando.
Não sabia por quanto tempo, nem se haveria chegada.
Talvez o próprio ato de caminhar fosse, desde sempre, a única forma de chegar
até si.
Silvia Marchiori Buss
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