Coxias da Vida
A vida não acontece apenas sob os refletores. Grande parte dela se desenrola nas coxias, nesses bastidores onde quase ninguém presta atenção. É lá que se escondem as histórias dos que não brilham no palco, mas que, de alguma forma, também sustentam o espetáculo. Ontem, em Lausanne, vivi um desses encontros de bastidor que iluminam a alma mais do que qualquer cena principal.
Saí da escola e parei em um
café. Pequeno, aconchegante, espalhava mesas na calçada em frente à igreja de
Saint-François, como se convidasse a cidade inteira a repousar por um instante.
Foi ali que ele apareceu. Um rapaz jovem, bonito apesar da aspereza do tempo.
Roupas sujas, sandálias gastas, calcanhares rachados como terra seca pedindo
chuva. Aproximou-se com um “pardon, madame” tímido, misturando francês
atropelado e gestos. Pediu dinheiro para comer.
Olhei minha bolsa — não
havia moedas, nem notas. Disse a verdade:
— Não tenho dinheiro físico. Nessa hora nervosa saiu em inglês mesmo, a língua
universal: “I have no money”...Ele de cara entendeu...Mas posso te oferecer um
lanche
Ele agradeceu com os olhos
baixos. Sentou-se numa mesa logo ao lado, em plena luz do sol, como quem busca
no calor um refletor capaz de aquecer também a dignidade. Pediu rápido o que
queria comer, direto, sem rodeios, e percebi no gesto a pressa da fome que não
se disfarça.
Quando chamei a garçonete
para pedir uma garrafa de água, ele me olhou. Foi um olhar silencioso, um
pedido quase invisível. Então, suavemente, acrescentei:
— Duas, por favor.
Uma delas seguiu até sua
mesa. E nesse gesto simples senti como se um rio transparente tivesse se aberto
entre nós, ligando dois mundos que raramente se tocam. Ele bebeu a água como
quem celebra uma dádiva. Sorriu breve, um sorriso acanhado, mas suficiente para
ascender-lhe o rosto.
A conversa nasceu aos
trancos. Ele não falava inglês, nem espanhol, nem o francês que já começo a compreender.
Mas conseguimos nos entender em pedaços de frases, gestos e silêncios. Descobri
que era austríaco, um homeless por escolha amarga: as drogas o afastaram
da família, da casa, de tudo. Desde então, dizia ele, seguia apenas o calor.
— Onde tiver calor… pra lá que vou — murmurou, como se fosse uma filosofia.
Olhei-o ali, sentado em
plena claridade, e pensei no quanto a vida distribui papéis de maneira
desigual. Uns sob os aplausos; outros nas coxias, invisíveis, sobrevivendo no
escuro.
Talvez eu nunca mais o
veja. Ou talvez, quem sabe, nossos caminhos se cruzem de novo, até mesmo no
Brasil, onde o sol não se cansa de brilhar. Mas pouco importa: ficou em mim a
certeza de que, por um instante, as cortinas se abriram e o palco e a coxia se
tocaram. E nesse encontro breve, a vida ganhou outro tom.
Silvia Marchiori Buss
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