Como Uma Nuvem Solitária

No domingo, subi até o Parc de Milan, esse mirante erguido pelo próprio desejo da terra, onde Lausanne repousa como uma amante antiga nos braços invisíveis do tempo. Ali, o ar tem gosto de promessa e o vento sopra como se acariciasse a pele do mundo. O Lago Léman, debaixo, tremulava em azuis que mais pareciam véus de seda espalhados por um corpo que nunca se revela inteiro. Os Alpes franceses, altivos, guardavam seus segredos como amantes discretos: mostram o contorno, mas escondem o íntimo.

Era um cenário que embriagava — não de vinho, mas de silêncio. Quase ousei chamá-lo de quadro, quase murmurei um nome de pintor, até perceber a insolência do gesto: ali, só a natureza tem o direito de assinar sua própria obra.

Entre o som compassado das botas sobre o cascalho e o murmúrio das conversas que se soltavam dos grupos de caminhantes, algo me desviou o olhar. Havia uma mulher sozinha, semioculta entre arbustos, como se fosse parte da paisagem e, ao mesmo tempo, quisesse furtar-se dela. Seu corpo permanecia quieto, mas os olhos denunciavam um movimento interno — talvez um pensamento em fuga, talvez uma lembrança que ainda ardia.

Parecia uma nuvem solitária, dessas que vagam pelo céu sem intenção de chuva. Carregava sua própria sombra e, ainda assim, era clara — como se fosse feita de algodão e silêncio. Não chorava, não ria, não pedia nada ao mundo. Apenas se deixava estar.

E foi impossível não pensar que, em cada mirante do mundo, há sempre alguém assim: que não veio buscar a vista, mas um respiro. Talvez quisesse esconder-se dos olhares, talvez esperasse ser encontrada.

Continuei a caminhar, mas aquela figura permaneceu comigo. Pensei que todos nós temos o nosso instante de nuvem solitária: o momento em que precisamos nos encostar no invisível, suspender o peso dos dias e recolher-nos ao anonimato das árvores. Ninguém a chamou, ninguém a interrompeu. A vida, sábia, deixou-a ali, pairando sobre o domingo como quem sussurra: também é permitido não ser sol, também é permitido não chover.

E assim, entre o lago que brilhava embaixo e o céu que se abria em cima, compreendi que aquela mulher era o próprio retrato do humano — essa oscilação delicada entre estar e desaparecer.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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