Cinquante Ans et Une
Em Lausanne — pelo menos do pouco que conheço da Suíça — há uma quantidade impressionante de habitantes que já carregam décadas de histórias. A cidade parece feita para acolher essa idade: calçadas limpas, ritmo sereno, bancos convidativos para descansar pernas e pensamentos. Fontes com agua potável pra refrescar o corpo. Talvez por isso, sem querer querendo, eu tenha vindo parar aqui.
Naquela manhã, me encontrei
numa concessionária, decidida a comprar um carro. Graças a Dieu, encontrei um
vendedor português, o que me tirou um peso das costas. Era um momento tenso:
todos os carros que comprei na vida foram escolhidos a deux. Agora, estava
apenas eu, diante de uma responsabilidade grande e com pouco conhecimento além
do instinto simples de “gosto” ou “não gosto”. Escolhi pelo coração — j’ai
choisi ce que j’aimais — e pronto.
Enquanto assinava papéis,
reparei num casal na mesa ao lado. Idosos, bem mais do que eu. Ela, um
espetáculo: chiquérrima, envolta em dourados que pareciam puro ouro, com uma
bolsa daquelas que entram sozinhas numa sala e impõem respeito. Escolhia, com
cuidado, a cor de seu novo carro. Presente do marido pelos cinquenta anos de
mariage.
Cinquenta anos... Quase
como eu teria. Só que, ao contrário dela, não terei oportunidade de festejar
com ele. Então, me presenteio. Ele, tenho certeza, aprovaria — afinal, amava
carros.
A conversa deles não era
alta, mas impossível não reparar na ternura. O modo como ele se inclinava para
ouvir, como ela repousava a mão no braço dele, o brilho satisfeito de quem
ainda sabe se choisir todos os dias.
Quando terminei de assinar,
o vendedor colocou as chaves na minha mão como quem entrega um pequeno talismã.
O metal frio tinha um peso diferente — não o do carro, mas o da memória.
Lembrei do toque das mãos que tantas vezes seguraram outras chaves comigo, da
nossa coreografia silenciosa para decidir quem ia dirigir.
O casal levantou-se.
Caminhavam devagar, mas no mesmo compasso, ligados por um fio invisível. A
porta automática se abriu e a luz da rua fez brilhar ainda mais o ouro da bolsa
e das alianças.
Saí logo depois. O meu
carro, esperando no estacionamento, parecia me reconhecer. Coloquei a mão no
volante e, antes de girar a chave, fechei os olhos por um instante. Imaginei
que ele estivesse ali, comentando a cor, ajeitando o banco, sorrindo com aprovação.
Quando o motor ganhou vida,
senti que não era apenas um carro novo que eu estava levando. Era um presente
silencieux para mim mesma, um gesto de amor por tudo que vivemos e que, de
algum modo, ainda vive.
Na esquina, vi o casal.
Eles me acenaram. Respondi com um sorriso que, se pudesse falar, diria merci.
Não sei se entenderam, mas naquele momento, nós três, cada um à sua maneira,
celebrávamos o mesmo: l’amour.
Silvia Marchiori Buss
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