Caminhos por Lausanne
Há cidades que não se atravessam apenas com os pés. Lausanne é uma delas. Erguida sobre quatro colinas — Cité, Bourg, Saint-Laurent e Chauderon —, ela obriga a olhar para cima, para baixo, e também para dentro. Cada subida pede fôlego, cada descida devolve pensamentos, e eu sigo assim, caminhando por ruas que se confundem com a minha própria memória.
Penso em você a cada
esquina. Imagino sua impaciência nas ladeiras, o riso que surgiria entre um
resmungo e outro, e sinto falta até do jeito que reclamava...quando reclamava,
porque reclamar não era do teu feitio...No fundo, sei que você teria se
encantado também: com os becos que se abrem como portais inesperados, com a
vista que se descortina de repente sobre o Léman e os Alpes.
As fontes espalhadas pela
cidade parecem sussurrar histórias antigas. Algumas brotam discretas em
pequenas praças, outras se impõem com esculturas que desafiam o tempo.
Aproximo-me para beber um gole, e o frio da água desperta em mim um tipo de
lucidez: estou aqui, mas ainda caminho com você ao lado.
Nas ruas estreitas do
centro, observo as pessoas. Elas carregam pressa, sacolas, silêncios. Algumas
me oferecem um sorriso rápido; outras, apenas o roçar de ombros na multidão. E
é curioso como, mesmo entre tantos desconhecidos, sinto sua presença mais forte.
É como se cada rosto anônimo fosse lembrança de um olhar seu que não se apaga.
Ao fim do dia, quando o
guarda-noturno da Catedral anuncia as horas com a mesma tradição secular, tenho
a sensação de que ele não fala apenas para a cidade adormecida. Fala também
para mim, que caminho solitária pelas colinas, e para você, que ainda me acompanha
nos pensamentos.
Lausanne me acolhe assim:
feita de fontes que murmuram, colinas que desafiam e ruas que guardam a
multidão anônima onde continuo procurando você. E encontro — não nos rostos,
não nos passos, mas no silêncio que se faz entre um caminho e outro.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário