" Cada Um Sabe a Dor e a Delícia Que Leva no Coração
Flora gostava de caminhar sozinha. Não por solidão, mas porque havia aprendido cedo que o silêncio da rua também pode ser conversa. Desde menina, inventava histórias para os rostos que cruzava: a senhora de xale azul devia ter um jardim secreto; o jovem apressado escondia uma carta de amor no bolso; o cachorro que latia para nada talvez fosse, na verdade, guardião de fantasmas.
Tinha esse hábito desde a
infância, quando passava tardes inteiras no quintal da casa da avó, colhendo
margaridas para enfeitar a mesa de madeira. A avó dizia: “Flores são para os
vivos, minha menina, para lembrar que a vida insiste em florir.” Flora
nunca esqueceu.
Na juventude, apaixonou-se
uma vez, daquelas paixões que atravessam como vento repentino. Riram muito,
fizeram planos demais, acreditaram que podiam dobrar o tempo. Não deu certo,
mas não terminou em tragédia: apenas se desfez, como uma estação que passa. O
que ficou foi uma lembrança que ainda hoje perfuma certos dias, como roupa
esquecida no armário.
Por isso, ao entrar naquela
loja de flores, anos depois, não buscava nada em especial. Apenas se deixou
cercar pelas cores, como quem reencontra um idioma antigo. E foi ali que o
rapaz dos lírios apareceu, perguntando se resistiriam até domingo. O jeito desajeitado
dele lhe arrancou uma memória: o primeiro amor, tentando fazer um buquê com
flores roubadas do quintal da vizinha, pedindo desculpas por não ter dinheiro.
Flora respondeu ao rapaz
sem pensar:
— Se for para alguém importante, resiste.
Ele sorriu, e partiu.
Ela ficou.
Acabou levando apenas uma
tulipa branca. Em casa, colocou-a sozinha em um copo de vidro. Sentou-se diante
dela, como diante de uma visita inesperada.
E ali, olhando a tulipa se
abrir lentamente, Flora sentiu-se inteira: lembranças, perdas, risos,
cicatrizes, promessas. Nada precisava ser explicado, nada precisava ser
resolvido. Porque cada um sabe a dor e a delícia que leva no coração.
Silvia Marchiori Buss
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