A Vida Amorosa de Sabrina
Sabrina tinha a mania de dizer que conhecia o fim de cada história antes mesmo do primeiro beijo. Ainda assim, se lançava como quem se atira no mar em dia de ressaca: sabendo que vai se afogar, mas incapaz de resistir ao chamado da onda.
Com Roberto, o executivo de
fala mansa, tudo começou no calor de um hotel no centro. Ele a despiu com
sofreguidão elegante, como quem se apressa mas não esquece da cerimônia.
Sabrina sentiu a boca dele explorando suas coxas, os dedos firmes que sabiam exatamente
onde apertar. Era como se ele estudasse seu corpo em cada gesto, memorizando
atalhos, demorando-se nas curvas. Durante semanas, se encontraram em quartos
anônimos, onde os lençóis guardavam os segredos de uma luxúria sem freios. Mas,
quando o perfume de outras mulheres começou a denunciá-lo, Sabrina soube: mais
uma vez, era só ela em meio a muitas.
Henrique parecia diferente.
Médico, mãos cuidadosas, um olhar que se demorava mais no rosto do que nos
seios. Fazia amor como quem ouve uma história: lento, atencioso, permitindo que
ela conduzisse o ritmo. Sabrina se sentia quase inteira ao lado dele, como se
pudesse ser mais do que corpo, mais do que desejo. Mas as garrafas escondidas
denunciavam o outro homem que habitava nele. As mesmas mãos que a acariciavam,
em outras noites tremiam, violentas no gesto, perdidas no álcool. Sabrina
tentou segurar sua queda, até perceber que não era personagem de conto de
salvação. Fugiu, ainda ardendo de um desejo mal resolvido.
E houve a noite no bar.
Sabrina já estava entregue ao vinho, ao riso solto, quando o encontrou no
corredor estreito que levava ao banheiro. O rapaz tinha um olhar faminto,
desses que não pedem licença. Encostou-a contra a parede fria, e o beijo veio
como incêndio. Mãos apressadas, corpos colados, o barulho abafado da música se
misturando ao som dos dois. Foi rápido, urgente, uma explosão de luxúria
clandestina. Ao sair, ainda ofegante, descobriu pelos amigos que ele ainda
estava no ensino médio. O arrepio da noite virou gelo. Sabrina se sentiu
ridícula, usada e, ao mesmo tempo, cúmplice de um erro sem desculpa. Mais uma
vez, matéria-prima para um conto: mulheres que se enganam, que se queimam, que
caem em armadilhas.
Depois, veio Daniel, o
professor de literatura. Mais maduro, mais contido, ele a conquistou com frases
sublinhadas em seus livros, com o respeito que parecia raro. Foram semanas de
conversas intermináveis, sexo em hotéis baratos, risadas cúmplices.
— Vai acabar — disse ela certa noite, nua sobre o peito dele.
— Tudo acaba — respondeu Daniel, sem drama. — Mas enquanto não acaba, é nosso.
Sabrina sorriu. Talvez
fosse isso. Não finais, mas instantes. Não eternidade, mas intensidade.
E assim seguiu escrevendo:
romances que terminavam antes do “felizes para sempre”, mas que deixavam suas
leitoras com a sensação de terem vivido cada suspiro junto dela. Porque, no
fundo, Sabrina sabia: o definitivo é uma ilusão. O que permanece são as histórias.
Sabrina nunca escrevia o
final. Deixava em suspenso. Porque, no fundo, sempre havia uma parte dela que
ainda queria acreditar que o próximo poderia ser diferente.
Silvia Marchiori Buss
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