À Beira de Um Vulcão

Ninguém permanece à beira de um vulcão sem carregar no corpo a memória do risco.

Quem ousa ali permanecer aprende a ouvir o coração do mundo batendo sob os pés.

Ela estava sentada sobre uma pedra negra, os olhos fixos na cratera que ainda soltava véus de fumaça, como se respirasse em silêncio. O vento trazia o cheiro áspero do enxofre, misturado ao perfume de uma terra antiga — cada partícula era lembrança do que já queimou, se desfez e voltou a nascer.

Não viera por coragem, mas por exaustão. Fugira da cidade, das vozes que lhe ditavam o que fazer, das promessas que se quebravam antes mesmo de serem cumpridas. Buscava um lugar onde pudesse ser pequena, quase invisível, porque só assim deixaria de lutar contra o que não podia mudar.

À beira do vulcão, o medo não era inimigo, mas companheiro íntimo. Podia ruir a qualquer instante, cuspir fogo, abrir abismos. Ou apenas repousar, como fera adormecida. E nesse equilíbrio precário havia uma estranha revelação: estar viva era também estar exposta ao fim.

Um homem surgiu atrás dela, os passos discretos sobre a rocha escura. Vestia roupas gastas, um chapéu de abas largas, e nos olhos trazia o mesmo tom cinzento da fumaça.

— Não é lugar para ficar — disse ele, a voz rouca como pedra arranhada.
— Eu sei — respondeu sem virar o rosto. — É justamente por isso que estou aqui.

Ele se calou. Sentou-se ao lado dela. Não a tocou, não insistiu. Apenas partilharam o silêncio, ouvindo o vulcão respirar.

Quando ela se ergueu para partir, o chão tremeu leve, como um aviso contido. Da cratera, ergueu-se um sopro laranja que manchou o céu. Não havia explosão, apenas a lembrança de que a vida, como o fogo, nunca se apaga: apenas se recolhe, esperando o instante de arder de novo.

E foi assim que desceu da montanha — não com respostas, mas com a consciência de que viver é sempre caminhar à beira de um vulcão.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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