Você Não Pode Ser Meu Céu

Era quase noite quando ela chegou. O sol ainda disputava com a penumbra um último instante de glória, tingindo as janelas do apartamento com tons de ouro envelhecido. Maria abriu a porta com a chave que ainda guardava — um gesto automático, desses que o corpo aprende antes da mente aceitar que não faz mais sentido.

Mateus estava na cozinha. Não pareceu surpreso ao vê-la. Apenas ofereceu um meio sorriso, contido, e apontou com o queixo para a chaleira no fogo.

— Vai querer chá?

Ela concordou com a cabeça. Tinha passado o dia inteiro entre pessoas que falavam demais e diziam de menos. Com ele, sempre foi o contrário. O silêncio era uma forma de presença.

Sentaram-se à mesa. Por um instante, nada mais existiu além do vapor que subia das xícaras, lento, como se tentasse costurar o que havia se rasgado entre eles.
Nenhum dos dois parecia saber exatamente por que estavam ali, mas também não havia pressa em descobrir.

— Ainda escuta as mesmas músicas? — ela perguntou, tocando na borda da xícara como quem tateia o tempo.

— Algumas, sim. Outras mudaram. Como tudo.

Ela sorriu sem abrir os lábios. Era estranho estar ali. Familiar e estranho. O mesmo abajur torto no canto da sala, a mesma mancha de café no tampo da mesa, os mesmos olhos que ela tentou esquecer inúmeras vezes — e falhou.

— Ainda sonha comigo? — ele perguntou, sem encará-la.

Ela não respondeu de imediato. Não era uma pergunta qualquer. Havia perguntas que envelhecem conosco. Outras se recusavam a morrer.

— Às vezes. Quando estou distraída, penso em nós.

Mateus mordeu o lábio, como se quisesse impedir alguma palavra de escapar.

— E você? Ainda escreve?

— Menos. Ou mais. Não sei. Depende do que me dói no dia.

Ela tirou do bolso um envelope amassado. Colocou sobre a mesa.
— Isso é teu. Achei num livro teu, aquele sobre desertos.
Ele reconheceu a própria letra no canto do papel. Não abriu. Sabia o que era. Um bilhete antigo. Um pedido de desculpas que ela nunca respondeu.

— Ainda guarda isso?

— Guardei você, não ia guardar um papel?

Ela se levantou e foi até a estante. Passou os dedos pelas lombadas dos livros como quem toca uma cicatriz. Parou num volume de poesia. Abriu, folheou distraída, até encontrar uma anotação feita por ele, anos atrás: “O amor é um lugar. Mas nem todo mundo consegue morar no mesmo endereço.”

Voltou pra mesa com o livro nas mãos.
— A gente se perdeu nisso, né?

— No endereço?

— Não. Na ilusão de que amor é moradia. Às vezes é só passagem. Um abrigo no meio da estrada.

O telefone tocou ao fundo. Nenhum dos dois se moveu para atender.
Deixaram tocar. Como tantas outras coisas que deixaram passar.

Ela terminou o chá, deixou a xícara sobre a mesa e olhou para ele como se fosse a primeira — ou última — vez.

— Você não pode ser meu céu — disse, enfim — E eu também não posso ser o seu. A gente tentou. Tentou bonito. Mas céu é coisa que se contempla, não se habita.

Ele não discordou. Mas também não concordou. Ficou ali, os olhos fixos nas mãos, como se nelas estivesse escrito algum caminho.
Maria foi até a porta. Abriu. A noite tinha caído por completo, mas não fazia frio.

Antes de sair, virou-se e disse, como quem confidencia algo a uma lembrança:

— Se algum dia a gente se encontrar por acaso… não diz nada. Só me olha como quem reconhece um livro que já leu, mas não lembra o final.

Ela saiu.
A porta não bateu.
Nem fechou por completo.
Ficou entreaberta.

Lá fora, a cidade não sabia de nada.

Mas o vento — o vento, que envolvia seu corpo miúdo, parecia saber.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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