Sobreviver é Um Verbo Sem Brilho, Mas Necessário
Não se trata de recomeçar, de florescer depois da dor ou de colher aprendizados no terreno árido da ausência. Às vezes, é só isso: sobreviver. Continuar respirando mesmo quando o ar não tem gosto. Abrir os olhos sem desejar enxergar. Levantar-se da cama porque o corpo, ainda que partido, insiste em não morrer.
A sobrevivência após o luto
não tem glamour. É silenciosa, lenta e, muitas vezes, secreta. Os outros
perguntam como você está — e você aprende a responder com palavras que não
dizem nada. “Vou levando.” “Tô tentando.” “Um dia de cada vez.” Fórmulas prontas
que encobrem a verdade: não há linguagem suficiente para traduzir a ausência
que se arrasta dentro da pele.
Sobreviver é comer sem
apetite, rir sem leveza, trabalhar com um buraco no fundo dos gestos. É saber
que o tempo não cura, apenas arrasta. E que, com sorte, um dia esse arrasto
deixa de doer tanto.
A vida segue, dizem. Mas
omitem que seguir não significa esquecer, tampouco superar. O que se faz é
carregar — e isso também cansa. Há dias em que o luto parece ter passado, mas
basta um cheiro, um trecho de música, uma fotografia esquecida no fundo da gaveta
para tudo ruir de novo. E você se vê ali, tentando se juntar aos pedaços, não
para voltar a ser quem era, mas para ser alguém que consiga continuar.
Porque o luto não é uma
travessia com ponte ou barco. É um território novo onde se aprende a caminhar
com outro peso. Quem sobrevive não volta — inventa outro jeito de existir. E
mesmo assim, há beleza: não a beleza do consolo fácil, mas aquela crua, que
brota do que permanece. A beleza de manter viva uma memória sem que ela te
afogue. De rir sem culpa. De lembrar sem se desfazer.
A sobrevivência não é
redenção. É só a arte de seguir amando quem partiu, mesmo com os pés fincados
em um mundo que insiste em continuar. E isso, por si só, já é imenso.
Silvia Marchiori Buss
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