Por Que Não Eu...
Ela se fazia essa pergunta todas as manhãs, antes mesmo de abrir os olhos. A mesma pergunta silenciosa, repetida como um mantra amargo: por que não eu?
Era como se o universo, em
sua mecânica perversa, tivesse feito uma escolha. E não a escolhera. Ele
partira. E ela ficara.
Ficara com a casa vazia e
os talheres dele ainda no escorredor. Ficara com o som da voz dele nos
corredores, que ecoava mais alto justamente pela ausência. Ficara com as
roupas, com as cartas antigas, com os sonhos que não se realizaram. E, acima de
tudo, ficara com a dor — uma dor tão funda, tão feroz, que às vezes parecia
capaz de devorá-la por dentro.
— Se era pra alguém ficar…
por que não ele? — pensava, encarando a xícara de café que já não tinha gosto
de nada. — Por que não fui eu?
Não era revolta. Era
exaustão. Era o peso de um amor que seguia existindo mesmo depois de ter
perdido sua metade. E doía. Doía como se todo dia alguém arrancasse um pedaço
de dentro dela e o deixasse sangrando sobre a mesa.
Ela nunca invejou a morte.
Mas, diante daquele abismo, havia dias em que parecia mais justo ter sido ela a
escolhida. Ele era riso largo, vento bom, abraço quente. Ela, mais sombra do
que sol, saberia suportar o silêncio. Ele não. Ele era feito de vida demais
para suportar a ausência.
Mas então, nos dias mais
dilacerantes, quando já não sabia distinguir se estava viva ou apenas à espera,
uma imagem lhe cortava o pensamento como relâmpago: ele sentindo o que ela
sentia.
Ele, no lugar dela.
Com os olhos fundos, o
peito em carne viva, o corpo dormindo e a alma acordada de saudade.
Não.
Não.
Isso ela não suportaria.
E nesse instante — nesse
susto de pensamento — que compreendeu, enfim, o que não sabia explicar.
Ela ficara porque o
amava demais para deixá-lo com essa dor.
A dor era o que restava do
amor. E ela aceitava. Se fosse preciso sangrar mil dias para que ele, onde quer
que estivesse, não precisasse sentir esse vazio, ela ficaria. Ficaria todos os
dias da vida, mesmo que só em metade. Mesmo que o amor agora doesse mais do que
curasse.
E então, cada vez que o
luto a mordia fundo, ela sussurrava:
Por que não eu?
E a resposta vinha, muda, mas certeira:
Porque te amo tanto… que aceito ficar para te poupar.
Silvia Marchiori Buss
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