Os Quase Famosos do Teatro Sem Nome

 Numa sala escura de um porão adaptado em teatro — que cheirava a mofo, incenso de lavanda e desespero artístico — quatro cadeiras acolhiam quatro corpos derrotados: Amadeu, Lucila, Gerson e Bebel.

Eram dois casais. Ou quase. Relacionavam-se quando a bebida, a frustração e o figurino apertado de alguma peça experimental criavam a atmosfera propícia. Tinham histórias, rixas e uma longa folha corrida de fracassos teatrais.

— Eu disse que fazer "Romeu e Julieta no Fim do Mundo" usando figurino de plástico bolha era arriscado — resmungou Gerson, abrindo uma cerveja quente.

— Arriscado é você querer fazer o Romeu com esse sotaque de vendedor de loja de ferramentas — retrucou Bebel, cruzando as pernas com teatral desprezo.

Lucila, a mais sensata (ou menos insana), levantou os olhos da revista de horóscopo:
— Mercúrio retrógrado, gente. Tudo explica.

— Retrógrado tá é o nosso talento — resmungou Amadeu. — Olha isso aqui! — e sacou um papel amassado do bolso — mais uma crítica: “A trupe entrega uma versão entediada de um apocalipse fictício. Destaque para a iluminação que permaneceu apagada por quase metade da peça.”

— Foi conceito! Conceito! — Bebel se exaltou. — Escuridão representando a alma humana em colapso!

— O público achou que era problema de luz, Bebel. Um deles foi embora e voltou com uma lanterna — Gerson rebateu.

Silêncio. Daqueles dramáticos que só artistas falidos sabem fazer.

— Gente — disse Lucila, rompendo o clima —, a gente precisa fazer alguma coisa. Chamar atenção. Ser notado. Talvez... um nu artístico?

— Eu topo — disse Amadeu rápido demais.

— Não! — disseram os outros três em uníssono.

— Então vamos fingir que vamos nos separar! Tipo… anunciar o fim do grupo. E aí voltamos com outro nome, tipo... “Cia Ressuscitada”. A mídia adora uma fênix — sugeriu Gerson, com os olhos brilhando de desesperança criativa.

— Não, Gerson. Da última vez que você tentou mudar o nome, fomos confundidos com uma seita. A prefeitura fechou o teatro por “ritual suspeito com objetos de papel machê”.

— Eu ainda acho que deveríamos ter deixado os sacos de papel higiênico fora da cena da crucificação — murmurou Lucila, nostálgica.

Bebel levantou-se de um salto dramático:
— Chega! Ou a gente se reinventa ou vamos acabar fazendo teatro em casamento infantil no interior.

— Existe isso? — perguntou Amadeu.

— Não. Mas é o fundo do fundo do poço. A gente precisa de uma ação de impacto. Algo assim… escandaloso. Tipo... tipo… ocupar o saguão do teatro municipal com uma performance muda, pelada e coberta de tinta guache!

— Isso já foi feito. E a tinta causou coceira. — lembrou Gerson, coçando-se só de lembrar.

— Ok — Bebel retomou — então que tal... fingirmos um romance entre mim e Lucila?

Silêncio.

— A gente já se pega de vez em quando, né? — disse Lucila, dando de ombros.

— Mas agora seria estratégico. A gente posta foto no Instagram, anuncia um espetáculo chamado “Mulheres que se Amaram no Apocalipse” e… pronto! Cultura, diversidade, romance e fim do mundo. O combo perfeito!

— Eu não vejo erro — disse Amadeu, mordendo um pão dormido.

— Vocês são todos doidos — Gerson disse, mas já anotava no caderninho a ideia do título.

— E você é o mais doido de todos, Gerson, que ainda escreve ideia num caderninho com papel carbono — disse Lucila.

— É conceitual — murmurou ele, ofendido.

Naquela noite, marcaram uma coletiva de imprensa. Não foram jornalistas, mas apareceu uma blogueira de astrologia e um motoboy que tinha se perdido. A performance foi improvisada no estacionamento. Tinha guache, gritos, uma trilha sonora feita com um pandeiro velho e a participação especial de um cachorro que entrou em cena e roubou o pão do Amadeu.

— Foi mágico! — disse Lucila, suja de azul e com um cílio colado na orelha.

— Foi um surto coletivo — respondeu Bebel, tomando uma cachaça em homenagem à arte incompreendida.

Dias depois, receberam uma proposta: apresentar “Mulheres que se Amaram no Apocalipse” num festival de teatro alternativo em São Tomé. Cachê simbólico, mas com direito a acampamento gratuito e almoço vegetariano.

— Estamos de volta! — gritou Amadeu, levantando o pandeiro como um troféu.

— Nunca estivemos lá — corrigiu Gerson.

— Mas agora estamos indo — concluiu Lucila, rindo enquanto empacotava os figurinos de plástico bolha.

No fundo, todos sabiam: o sucesso talvez nunca viesse. Mas as histórias, essas sim, rendiam um espetáculo à parte.

E, com sorte, algum aplauso — nem que fosse do rabinho de um cachorro sarnento.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As Bruxas Estão Soltas...

Não Quero Esquecer do Teu Abraço

As Gavetas da Mente e Suas Chaves Específicas (Crônica)