O Quarto de Cima

Era no quarto de cima que ela mais sentia sua falta.

Não era apenas a cama vazia, nem o guarda-roupa que ainda guardava suas camisas alinhadas por cor — como ele gostava, quase maníaco em sua organização. Era o tempo ali que parecia outro. Um tempo que hesitava em passar.

Na casa toda, a vida tentava seguir.
Na cozinha, o cheiro do café de toda manhã.
Na sala, a TV falando sozinha.
Mas no quarto de cima, o ar tinha outra densidade. Como se respirasse memórias.

Ela subia as escadas sempre no mesmo horário. Sentava-se na beira da cama, o corpo ainda ereto, mas os olhos sempre cansados. O sol entrava torto, pousava na poltrona que antes era dele, e deixava tudo com um tom de espera.

Foi nesse quarto que, pela primeira vez, ela questionou algo que a acompanhava desde menina: a fé.

Antes, bastava fechar os olhos e rezar. Bastava acreditar.
Mas agora...
Agora, entre as preces e o silêncio, crescia uma dúvida que a consumia sem fazer barulho.

Passou a ler tudo que encontrava.
Teorias sobre consciência não-local, campos de energia, o entrelaçamento quântico.
"Nada se perde, tudo se transforma", diziam os cientistas.
"A alma é eterna", repetiam os espirituais.

Mas entre uma teoria e outra, havia um buraco. Um vão que nenhuma palavra preenchia.
Porque, no fundo, tudo o que ela queria era ouvir de novo o barulho da chave na porta. O jeito como ele dizia “cheguei” com aquele sotaque que o tempo não apagou. O som do chinelo arrastado no corredor, a risada engasgada quando ela dizia algo bobo.

Uma noite, após mais uma dessas leituras tardias, ela adormeceu no quarto de cima.

E sonhou.

No sonho, ela estava num campo aberto. Um campo que não parecia pertencer a este mundo. Nem grama, nem terra — só um chão macio, de cor indefinida, e um céu que pulsava luz. Ao longe, ele.
Não mais velho.
Não mais novo.
Simplesmente ele, do jeito como ela o amava.

Ele sorriu, estendeu a mão.
Ela foi até ele sem medo, como quem atravessa a dor com os olhos fechados.
Não houve conversa.
Mas os olhos disseram tudo:
"Estou aqui. Não como antes. Mas estou."

Quando acordou, ainda sentia a pele da mão dele sobre a sua.

Não contou a ninguém. Nem para as filhas, nem para a vizinha que insistia em visitá-la com palavras de consolo.
Sabia que alguns chamariam de ilusão.
Outros diriam que foi Deus.
A ciência explicaria como resquício da memória afetiva, estímulo do inconsciente, elaboração do luto.

Mas ela, que agora vivia entre o microscópio e o mistério, sorriu sozinha e apenas sussurrou:

— Foi ele.

Naquela manhã, pela primeira vez em meses, ela abriu todas as janelas da casa.
O ar entrou em festa.
O sol passeou pelos cômodos como se fosse bem-vindo de novo.

No quarto de cima, o tempo ainda hesitava, é verdade.
Mas ela já não precisava que ele passasse depressa.
Porque havia descoberto algo precioso:
entre a fé que falha e a ciência que tarda, existe o amor.
E o amor, mesmo quando não se prova, se sente.
Mesmo quando não volta, permanece.

Mesmo quando não se vê, às vezes sonha a gente de volta.



Silvia Marchiori Buss

 

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