Bom Dia, Como Você Está?
A pergunta caiu como folha sobre a mesa da varanda. Nem vento havia, mas lá estava ela: pousada, serena, quase absurda na sua ternura tardia.
Ele a leu em voz baixa, como quem testa a delicadeza do mundo com a ponta da língua, como quem precisa aquecer a alma antes de permitir que qualquer palavra se instale no peito. Mas não havia ninguém diante dele. Apenas a xícara morna de café, o jornal esquecido desde a semana passada, e o céu — azul feito lembrança.
Chamava-se Miguel, mas quase ninguém o chamava assim. Para uns era “seu Migue”, para outros apenas “vizinho do 32”. Fazia tempo que o nome completo não soava em voz alta, como se os anos tivessem desgastado também a intimidade das palavras.
Havia uma solidão antiga nele, daquelas que não nascem de perdas abruptas, mas do lento esvaziar dos dias. A casa seguia a mesma — as plantas, o relógio da cozinha, o sofá afundado no lado esquerdo —, mas o tempo ali parecia andar de lado, como se evitasse encará-lo de frente.
Recebera o bilhete entre contas e panfletos, dobrado em quatro, com uma caligrafia que ele conhecia mais pelos gestos do que pela forma. Era dela.
Ela.
A mulher que havia partido sem dizer adeus. Apenas deixara a última xícara usada na pia, o lenço no encosto da cadeira, e um silêncio que parecia maior do que a ausência em si.
“Quando eu souber o que fazer com tudo isso que me transborda, talvez eu volte” — foram suas palavras, ditas mais com os olhos do que com a boca. Miguel, na hora, fingiu não entender. Não por orgulho, mas por medo de perder o que ainda estava inteiro. Depois, nos dias sem ela, entendeu. O transbordo, às vezes, afoga.
Agora, diante do bilhete — “bom dia, como está você?” —, Miguel não sabia se sorria ou se fechava as janelas do peito de novo. A pergunta não exigia resposta. Era um sussurro, um estalo, um fio. Um modo dela dizer: “ainda te alcanço, mesmo de longe”.
Ele dobrou o papel devagar, como quem dobra uma lembrança para que não amasse. Guardou-o no bolso da camisa que usava aos domingos — a mesma de quando iam juntos à feira, de quando dividiam o silêncio no banco da praça, de quando o amor era um lugar possível, mesmo sem festa.
Não ligou. Não respondeu. Não escreveu de volta.
Apenas se levantou. Varreu a varanda. Passou um pano na mesa. Esquentou mais café.
E, num gesto quase imperceptível, pôs outra xícara sobre a mesa.
Não entendeu porque um sopro de alegria e esperança o fez acordar...talvez, porque às vezes é isso: não se espera, mas se deixa o lugar à espera. Como quem acredita que, mesmo que não volte, o outro saberá que há uma xícara ali — morna de saudade, cheia de silêncio, mas pronta.
Ele a leu em voz baixa, como quem testa a delicadeza do mundo com a ponta da língua, como quem precisa aquecer a alma antes de permitir que qualquer palavra se instale no peito. Mas não havia ninguém diante dele. Apenas a xícara morna de café, o jornal esquecido desde a semana passada, e o céu — azul feito lembrança.
Chamava-se Miguel, mas quase ninguém o chamava assim. Para uns era “seu Migue”, para outros apenas “vizinho do 32”. Fazia tempo que o nome completo não soava em voz alta, como se os anos tivessem desgastado também a intimidade das palavras.
Havia uma solidão antiga nele, daquelas que não nascem de perdas abruptas, mas do lento esvaziar dos dias. A casa seguia a mesma — as plantas, o relógio da cozinha, o sofá afundado no lado esquerdo —, mas o tempo ali parecia andar de lado, como se evitasse encará-lo de frente.
Recebera o bilhete entre contas e panfletos, dobrado em quatro, com uma caligrafia que ele conhecia mais pelos gestos do que pela forma. Era dela.
Ela.
A mulher que havia partido sem dizer adeus. Apenas deixara a última xícara usada na pia, o lenço no encosto da cadeira, e um silêncio que parecia maior do que a ausência em si.
“Quando eu souber o que fazer com tudo isso que me transborda, talvez eu volte” — foram suas palavras, ditas mais com os olhos do que com a boca. Miguel, na hora, fingiu não entender. Não por orgulho, mas por medo de perder o que ainda estava inteiro. Depois, nos dias sem ela, entendeu. O transbordo, às vezes, afoga.
Agora, diante do bilhete — “bom dia, como está você?” —, Miguel não sabia se sorria ou se fechava as janelas do peito de novo. A pergunta não exigia resposta. Era um sussurro, um estalo, um fio. Um modo dela dizer: “ainda te alcanço, mesmo de longe”.
Ele dobrou o papel devagar, como quem dobra uma lembrança para que não amasse. Guardou-o no bolso da camisa que usava aos domingos — a mesma de quando iam juntos à feira, de quando dividiam o silêncio no banco da praça, de quando o amor era um lugar possível, mesmo sem festa.
Não ligou. Não respondeu. Não escreveu de volta.
Apenas se levantou. Varreu a varanda. Passou um pano na mesa. Esquentou mais café.
E, num gesto quase imperceptível, pôs outra xícara sobre a mesa.
Não entendeu porque um sopro de alegria e esperança o fez acordar...talvez, porque às vezes é isso: não se espera, mas se deixa o lugar à espera. Como quem acredita que, mesmo que não volte, o outro saberá que há uma xícara ali — morna de saudade, cheia de silêncio, mas pronta.
Silvia Marchiori Buss

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