Aquela Que Escrevia Para Não Desaparecer

Ninguém mais sabia dizer onde começava a mulher e onde terminavam as palavras.

Ela própria já não tinha certeza.

Chamava-se — ou fora chamada um dia — de Helena. Mas esse nome andava esquecido nos envelopes, nos cartões, nas chamadas do celular que ela raramente atendia. Última filha de uma família onde as mulheres se acostumaram a silenciar, ela aprendera cedo a deixar escorrer pela garganta tudo aquilo que lhe entalava os dias. Até que, sem qualquer estardalhaço, deixou de engolir. E escreveu.

A primeira palavra foi um sussurro no escuro, quase um espasmo. Mas bastou. Era como abrir uma fresta no peito por onde o mundo, ainda que em ruínas, pudesse respirar de novo. Escrever tornou-se hábito, depois ritual, depois corpo.

Ela já não sabia se a dor vinha antes ou depois das palavras. Se escrevia para conter o caos ou se o caos se aproveitava da escrita para se instalar com mais elegância. Só sabia que doía menos quando escrevia. E isso lhe bastava.

O papel — ou o que o mundo chamava de papel — era a única pele onde ela se reconhecia sem precisar se explicar. Ali, podia ser frágil sem pedir desculpas. Ali, era inteira mesmo quando quebrada.

As pessoas diziam: “é mais criativa porque sofre”. Mas não era isso. A criatividade não era produto da dor. Era um modo de resistir a ela. Havia dias em que a escrita era quase parto; em outros, sepultamento. E às vezes as duas coisas juntas.

Quando o amor lhe visitava, ela não deixava bilhetes. Escrevia cartas que nunca enviava. Palavras que nasciam do coração, mas atravessavam o cérebro antes de chegar ao papel. Era essa a dobradinha secreta que só os que vivem intensamente conhecem: a emoção que pensa, o pensamento que sente.

Ela não usava a escrita como fuga — mas como presença. Era sua forma de existir quando tudo o mais parecia falhar. Escrevia para não gritar. Escrevia para não sumir. Escrevia como quem acende uma vela no meio de um blecaute, sem certeza se alguém verá a luz, mas com a firme convicção de que ao menos a chama existe.

E foi assim, pouco a pouco, que a mulher foi se desfazendo nas palavras.

Não morreu. Tampouco enlouqueceu. Apenas se transformou em texto. Em parágrafo. Em silêncio pontuado.

Quem a encontra hoje, talvez não perceba. Está ali, sentada num banco de praça, ou atravessando a rua com as compras do mercado, ou na mesa do café com um caderno aberto. Mas se você olhar com atenção, verá: ela é feita de frases. Os olhos guardam reticências, os dedos escorregam como vírgulas e o coração — o coração pulsa como um ponto final adiado.

Ela não espera mais ser lida. Apenas continua a escrever-se.

E talvez, no fim, seja isso o que permanece: uma mulher feita de palavras, ainda que o mundo insista em apagá-las.

 Fragmentos deixados por Helena: Dedicatória num caderno antigo.

"Para ninguém. Ou para todos.
Escrevo porque me transbordo.
E se escorre, é porque já fui demais para mim mesma."

H.

 O caderno foi encontrado no fundo de uma gaveta que já não se abria com facilidade. A filha a mantinha quase selada, como se temesse o que poderia escapar dali: cartas sem envio, fotos esquecidas, perfumes mortos no tempo.

Helena, sua mãe, escrevia como quem costura a própria alma. A filha só entendeu isso tarde demais.

 Bilhete nunca entregue, datado de outubro

"Eu amei você nos espaços em branco.

Enquanto falava, eu escrevia.
Enquanto você dormia, eu sobrevivia escrevendo.

Não é que eu escolhi a palavra no lugar do amor.
É que o amor, pra mim, sempre precisou de legenda.”_

 Foi ele quem encontrou esse bilhete. Dobrava roupas velhas para doação quando a folha caiu de dentro de um bolso de casaco. Soube, ao ler, que ela estivera sempre a meio passo de ir embora — não da casa, mas de si. E agora, tantos anos depois, ele a procurava nas entrelinhas, tentando entender o que nunca perguntou.

 Última página do último caderno

"Não me procure no lugar onde me viram por último. 

Sou como a água que passou entre os dedos —

parece que foi embora, mas ainda molha a pele.”

A neta, adolescente, herdou os olhos inquietos e o gosto pelo caderno com capa de linho. Um dia, no sótão da casa da avó, sentou-se sobre uma pilha de caixas e abriu o que parecia mais um diário antigo. Mas ao folhear, percebeu: não era sobre os dias, era sobre os vazios entre eles.

Leu em silêncio, como se escutasse a avó falando de um tempo em que ninguém a escutava.

Ali, aprendeu que escrever não era só um ato. Era um destino.

 Página solta entre os livros de poesia

"Ser feita de palavras não me salvou.

Mas me preservou.
E isso, talvez, já seja suficiente.”

 Foi lida por acaso numa biblioteca pública, dentro de um exemplar de Drummond. Um homem que nunca conheceu Helena leu aquelas frases e as guardou na carteira por mais de vinte anos. Em noites de angústia, lia aquilo como quem consulta um oráculo. Nunca soube quem era ela. Mas sentia que havia algo ali — um eco de sua própria solidão.

 E assim, fragmentada e inteira, esquecida e eterna, Helena permanece.

Não em retratos. Não em epitáfios. Mas nas frases que continuam a ecoar onde alguém ainda sente demais e não sabe por onde começar.

Basta uma caneta.
E ela volta.

 

 

 

 

Silvia Marchiori Buss

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