A Mulher Que Vivia Com os Anjos - 2012
Ninguém sabia ao certo quando começou. Talvez tenha sido numa manhã de céu anil, dessas que parecem limpas demais para esconder qualquer tormenta. Ou numa noite sem estrelas, quando o silêncio pesa mais do que as palavras. O fato é que, um dia, ela começou a conversar com os anjos.
Chamava-se Teresa — nome
comum, de mulher comum. Cabelos grisalhos sempre presos num coque apressado,
saias largas de algodão e um andar de quem carrega mais do que os ossos podem
suportar. Morava na última casa da Rua das Begônias, um sobrado antigo que
gemia com o vento, como se também sentisse saudade de algo que não sabia
nomear.
Os vizinhos cochichavam,
claro. Diziam que desde a partida do filho — não sabiam se por morte ou
distância — ela mudara. Passava as tardes na varanda, os olhos vagando entre as
nuvens, sussurrando coisas que ninguém ouvia direito. Às vezes sorria para o nada.
Outras, chorava baixinho, como se alguém lhe acariciasse os ombros enquanto
dizia: “calma, Teresa, logo passa”.
As crianças a temiam e a
amavam. Diziam que ela via coisas que os adultos tinham esquecido como ver. Um
menino jurava que certa vez ela o impediu de cair da escada apenas com um
olhar. A menina da casa ao lado disse que Teresa havia lhe contado segredos sobre
as estrelas — e que um dia elas viriam buscá-la.
Mas Teresa não contava
essas histórias a ninguém mais. Só aos anjos. Sentava-se em frente ao espelho
redondo do quarto, acariciava os ombros vazios como se ali houvesse asas, e
dizia: “hoje estou cansada, Rafael… vê se Miguel pode tomar conta do portão”.
Às quintas-feiras, acendia
três velas, colocava música de piano e dançava devagar pela casa. Sozinha. Ou
não. Seus pés deslizavam sobre o chão de madeira como se flutuassem, e às vezes
ria alto, como quem ouve piadas contadas por uma presença antiga e íntima.
Nunca contou muito aos
outros. Dizia apenas que, desde que os anjos vieram, o mundo parou de doer
tanto. Não deixaram de existir as dores, os desencontros, as ausências. Mas
passaram a ter algum tipo de moldura. Como se cada dor fosse um quadro e os
anjos os pendurassem com cuidado num museu secreto do coração.
Uma vez, a enfermeira que
cuidava dela durante os dias mais difíceis perguntou:
— Teresa, por que vive assim, com os olhos sempre noutro lugar?
Ela respondeu com um
sorriso que não pedia compreensão:
— Porque é lá que eles moram. E quando a gente ama alguém, aprende a morar onde
eles estão.
Na última manhã, o céu não
era azul nem cinza. Era uma mistura opaca, sem forma. A casa amanheceu aberta,
as janelas escancaradas como se esperassem alguém entrar. Teresa estava sentada
em sua poltrona, as mãos cruzadas sobre o colo, os olhos fechados — e um leve
rastro de perfume de jasmim no ar, embora ninguém ali lembrasse de ter visto
flores no jardim.
Nenhum sinal de luta.
Nenhuma carta. Nenhuma frase para ser lembrada em voz alta. Só um leve sussurro
ainda pairava no ambiente, como eco de despedida ou recepção.
Dizem que os anjos a
levaram. Outros, mais céticos, dizem que ela simplesmente cansou do mundo dos
homens. Não importa. A casa continua ali, quieta, e às vezes — nas tardes de
vento morno — parece que alguém dança sozinha no andar de cima.
E mesmo que ninguém tenha
visto, o menino da casa da frente jura que, certa noite, viu penas brancas no
telhado.
Só isso.
Sem lição.
Sem final explicado.
Só Teresa — a mulher que vivia com os anjos.
Silvia Marchiori Buss
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