A Mulher Que Pulou a Primavera
Conheci uma mulher que decidiu pular a primavera. Isso mesmo. Enquanto o mundo inteiro se preparava para florescer, ela fazia as malas e desaparecia. Não avisava ninguém. Não deixava bilhete. Apenas sumia, como quem se recusa a participar de uma festa que não escolheu.
A primeira vez que fez isso
foi no exato dia em que se completava um ano da morte do marido. Ele morreu em
setembro, logo no início da estação das flores. Não foi uma tragédia
estrepitosa. Nada de acidentes ou hospitais lotados. Foi uma dessas mortes que
doem pela delicadeza: ele simplesmente se foi, devagar, com a cabeça encostada
no colo dela, como se pedisse desculpas por partir.
E foi ali, naquele
instante, que a primavera deixou de fazer sentido para ela.
As flores viraram insulto.
O canto dos pássaros, deboche. A luz das manhãs, uma crueldade.
Como continuar sorrindo se ele não voltaria com o vento? Como fingir recomeço
se ela ainda carregava o fim?
Então, no ano seguinte, ela
escapou.
Foi parar na Suíça, num vilarejo discreto às margens do Lago Genebra. Um lugar
onde as palavras não a alcançavam e onde o outono já pintava as árvores com seu
dourado melancólico.
Era isso que ela queria: um
tempo que caísse, não que florescesse. Um tempo que compreendesse o que ela já
não sabia nomear.
Passou semanas ali. Não me
escreveu, não atendeu telefonemas. Apenas esteve.
Sentava-se à beira do lago com um livro fechado no colo, olhando a água como se
esperasse que o reflexo trouxesse alguma resposta. Às vezes, escrevia em um
caderno antigo. Linhas soltas, memórias esparsas, talvez poemas.
Uma folha caiu sobre seu joelho num desses dias. Ela a guardou. Como quem
recolhe sinais — ou despedidas.
Voltou depois que a
primavera passou.
As flores já murchavam, os jardins voltavam a ficar mansos.
E ela… não sorria nem chorava. Apenas respirava um pouco mais fundo, como quem
saiu debaixo d’água.
Desde então, faz isso todo
ano.
Em setembro, arruma a mala. Vai para onde o mundo está em silêncio, onde o
outono começa. E fica lá até que o calendário já não a provoque com lembranças
em flor.
Muita gente não entende.
Dizem que ela foge da vida. Que é exagero, drama.
Mas eu sei: ela só está respeitando o próprio tempo.
Nem toda dor aceita flores.
Nem toda ferida cicatriza com sol e perfume.
Algumas pessoas não nascem
mais para primaveras.
Preferem o abrigo maduro do outono.
E tudo bem.
Alguns recomeços não precisam de explosão de cor. Basta um banco à beira de um
lago, o vento no rosto e a certeza de que amar não significa florescer todos os
anos.
Às vezes, amar é justamente
isso: saber a hora de ir embora das estações que já não te cabem.
Silvia Marchiori Buss
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