A Escrita Como Lugar de Respiro
Há quem diga que a dor aguça a criatividade. Que é no momento do abismo que se encontra a palavra exata, aquela que atravessa a carne e pousa, serena, no papel. Não sei se é sempre assim. Mas sei que, quando tudo parece em ruína por dentro, escrever se torna uma espécie de andaime para o coração: sustenta, mesmo que provisoriamente, aquilo que ameaça desabar.
Não nego a importância dos
profissionais que acolhem nossas dores com escuta, técnica e presença. São
faróis. Mas não posso negar, tampouco, o efeito quase místico que as palavras
têm sobre mim. Quando elas vêm — e vêm como se viessem de dentro e de fora ao
mesmo tempo — sinto uma espécie de alinhamento entre coração e cérebro. Como se
o que dói deixasse de ser um caos indecifrável e passasse a ter forma, nome,
contorno. E só por isso, já alivia.
É como se, ao escrever, eu
oferecesse à minha dor uma casa. Não para prendê-la, mas para que ela não
precise mais vagar solta, assombrando tudo.
E não é só na dor que isso
acontece. No amor também. Porque amar é, em si, uma forma de criação. As
palavras que nascem do amor não pedem urgência, mas pedem cuidado. São doces
sem serem fracas, são delicadas sem serem frágeis. E, às vezes, são tão verdadeiras
que nos assustam de tão nuas.
Há dias em que escrevo para
não gritar. Outros, para não desistir. E há dias em que escrevo apenas para
agradecer por ainda sentir. Porque sentir — mesmo que doa — é prova de que
estou viva. E estar viva, neste tempo em que tudo é tão fugaz, já é um ato de
coragem.
A escrita, para mim, é mais
do que ofício. É sustento emocional. É uma forma de conversar comigo mesma sem
julgamentos. É quando o silêncio, finalmente, me escuta. E isso, eu ouso dizer,
é também uma forma de cura.
Talvez essa seja a tal
dobradinha: coração e cérebro, dor e amor, razão e sentimento. Quando caminham
juntos, produzem o que há de mais bonito e verdadeiro: palavras que não salvam
o mundo, mas salvam quem as escreve. E, vez ou outra, quem as lê também.
Silvia Marchiori Buss
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