Suspiro é o Sussurro da Alma

Há momentos em que o corpo continua ali — firme, sentado à mesa, andando na calçada, dobrando a toalha no varal — mas a alma, essa, se solta num fio invisível que escapa pelo peito. É quando vem o suspiro.

Um suspiro não se explica. Ele não pede licença, não avisa, não se justifica. É o que sobra quando a palavra não dá conta, quando o gesto seria exagerado, e o silêncio, por si só, seria cruel demais.

Na fila do mercado, diante do preço que subiu de novo, alguém suspira. Não é raiva, nem desalento — é só um cansaço mudo que se deixa escorregar.
Na sala, enquanto a panela borbulha no fogão, a mulher suspira. Talvez lembre da mãe, talvez de um amor que ficou em algum verão antigo.
No ônibus cheio, o jovem olha pela janela e suspira. A alma dele, inquieta, já não cabe no corpo que vai trabalhar.

O suspiro, esse pequeno soluço sem dor visível, é o que nos impede de explodir ou desabar. É quando a alma, tímida, diz “ainda estou aqui”, mesmo que o dia seja duro demais, mesmo que ninguém escute.

Às vezes, o suspiro é saudade. Outras vezes, é exaustão. E há dias em que ele é só um sopro de beleza diante do que quase passou despercebido: o cheiro do café pela manhã, o som da chuva no telhado, um rosto que lembramos por acaso.

O suspiro não resolve, não consola, não muda o rumo da história. Mas marca — como um sublinhado tênue na frase da vida.
É o que resta quando tudo já foi tentado. É o que escapa quando se ama em silêncio.
É o que nos mantém humanos, mesmo quando a alma, por um instante, parece querer evaporar.

E talvez seja assim que a alma sobrevive: sussurrando por entre suspiros aquilo que não cabe em voz nenhuma.

Silvia Marchiori Buss

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