Perdas e Danos

Há perdas que não anunciam sua chegada. Elas atravessam o dia comum como uma brisa cortante, silenciosa e implacável. Chegam sem pedir licença, derrubam o que estava de pé, arrastam promessas, desorganizam os móveis da alma. E ali, no centro do que sobra, ficamos nós — tentando nomear o que foi, entender o que deixou de ser, encontrar abrigo naquilo que ainda resta.

Nem sempre a dor vem com lágrimas. Às vezes, é só um vazio que se instala, discreto, entre uma frase e outra. Um silêncio no olhar. Um gesto que não se repete. Um cheiro que some da casa. Uma voz que a memória tenta, em vão, reconstituir.

O dano, esse irmão das perdas, nem sempre é visível. Pode viver escondido por anos, como uma rachadura no coração que só revela a gravidade quando tudo desaba. Um gesto atravessado, uma ausência não explicada, uma palavra que ficou atravessada no tempo — e de repente, ali está: o dano. E com ele, a pergunta muda: como se recomeça sem apagar?

Mas talvez não se trate de recomeçar. Talvez o que se espera da gente seja menos heroísmo e mais honestidade. Talvez seja apenas seguir. Com os espaços faltando. Com os nomes que doem. Com a saudade como moradora permanente de algum canto da alma. Porque há perdas que não se superam — se integram.

Não há roteiro. Não há método. Há dias bons, dias piores, dias em que só se respira. Há a lembrança, a ausência, o tropeço, o pequeno afeto que chega como um cobertor em noite fria. E há, vez ou outra, a beleza: na flor que brota sem aviso, na criança que sorri sem saber de nada, no café que ainda esquenta as mãos, no gesto de alguém que, mesmo sem entender, permanece.

Perdas e danos não nos tornam melhores. Mas às vezes nos tornam mais inteiros. Porque há inteirezas que só nascem das rachaduras. E há quem aprenda, aos poucos, a viver com o que falta — sem deixar de ser inteiro por isso.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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