O Que Faço da Minha Vida Sem Você
Ela costumava fechar os olhos no meio da música, como se o mundo todo coubesse naquele refrão repetido três vezes: “aprendi a te querer, a te querer, a te querer…”
Não era exagero, nem romantismo barato — era verdade. Ela aprendeu a querer. Antes dele, o querer era distraído, meio desajeitado, quase sempre apressado. Depois dele, não. Depois dele, era inteiro.
Ele chegou como chegam os ventos quentes antes da chuva — prometendo mudança, mas com um certo calor de permanência. Era um homem simples, sem palavras grandes, mas com gestos de raiz funda. Sabia fazer café do jeito certo, daqueles que perfumam a casa e a alma. Sabia dizer. Sobretudo ouvir. Quando ela falava de suas inseguranças, dos medos bobos, da solidão antiga, ele não a interrompia. Apertava sua mão, e aquilo bastava.
Nos dias comuns, ela sorria vendo-o organizar os legumes na geladeira ou reclamar do zíper da jaqueta que nunca fechava de primeira. Amava até isso: o pequeno desastre do zíper.
E foi assim, nesse cotidiano de coisas mínimas, que ela aprendeu a amar. Aprendeu como quem aprende uma nova língua: tropeçando nos primeiros tempos, mas com prazer em cada descoberta.
Mas um dia, como tantos que chegam sem anúncio, sem expectativa...ele partiu. Não houve tempo pra conversa nem despedida. Apenas foi. O coração dele — teimoso que era — decidiu parar no meio do caminho, ali entre um sorriso e um abraço.
Ela ficou. Com a música, com os talheres dele ainda na mesma gaveta, com o cheiro do café que insistia em não evaporar das paredes. Ficou com os dias longos e as noites que arranhavam.
No começo, perguntava para o espelho, para as paredes, para Deus:
— E agora, o que faço da minha vida sem você?
A resposta nunca vinha.
E então ela começou a inventar respostas. Um dia, fez pão com as mãos dele — ele havia ensinado. No outro, limpou o quintal cantarolando desafinada, como ele fazia. Depois, tirou os temperos da ordem e sorriu, quase com culpa.
Não era felicidade, não. Mas era vida. Uma vida remendada, colada com lembrança e saudade. Uma vida onde ele morava em cada canto.
Ela continuava sem saber o que fazer da vida sem ele.
Mas aprendeu, também, a continuar — ainda que aos pedaços.
Porque o amor que ensinou a querer, ensina também — com dor — a seguir.
E toda noite, antes de dormir, ela sussurrava baixinho:
“aprendi a te querer… a te querer… a te querer…”
E aquele sussurro era reza. Era luto. Era amor.
Silvia Marchiori Buss
Não era exagero, nem romantismo barato — era verdade. Ela aprendeu a querer. Antes dele, o querer era distraído, meio desajeitado, quase sempre apressado. Depois dele, não. Depois dele, era inteiro.
Ele chegou como chegam os ventos quentes antes da chuva — prometendo mudança, mas com um certo calor de permanência. Era um homem simples, sem palavras grandes, mas com gestos de raiz funda. Sabia fazer café do jeito certo, daqueles que perfumam a casa e a alma. Sabia dizer. Sobretudo ouvir. Quando ela falava de suas inseguranças, dos medos bobos, da solidão antiga, ele não a interrompia. Apertava sua mão, e aquilo bastava.
Nos dias comuns, ela sorria vendo-o organizar os legumes na geladeira ou reclamar do zíper da jaqueta que nunca fechava de primeira. Amava até isso: o pequeno desastre do zíper.
E foi assim, nesse cotidiano de coisas mínimas, que ela aprendeu a amar. Aprendeu como quem aprende uma nova língua: tropeçando nos primeiros tempos, mas com prazer em cada descoberta.
Mas um dia, como tantos que chegam sem anúncio, sem expectativa...ele partiu. Não houve tempo pra conversa nem despedida. Apenas foi. O coração dele — teimoso que era — decidiu parar no meio do caminho, ali entre um sorriso e um abraço.
Ela ficou. Com a música, com os talheres dele ainda na mesma gaveta, com o cheiro do café que insistia em não evaporar das paredes. Ficou com os dias longos e as noites que arranhavam.
No começo, perguntava para o espelho, para as paredes, para Deus:
— E agora, o que faço da minha vida sem você?
A resposta nunca vinha.
E então ela começou a inventar respostas. Um dia, fez pão com as mãos dele — ele havia ensinado. No outro, limpou o quintal cantarolando desafinada, como ele fazia. Depois, tirou os temperos da ordem e sorriu, quase com culpa.
Não era felicidade, não. Mas era vida. Uma vida remendada, colada com lembrança e saudade. Uma vida onde ele morava em cada canto.
Ela continuava sem saber o que fazer da vida sem ele.
Mas aprendeu, também, a continuar — ainda que aos pedaços.
Porque o amor que ensinou a querer, ensina também — com dor — a seguir.
E toda noite, antes de dormir, ela sussurrava baixinho:
“aprendi a te querer… a te querer… a te querer…”
E aquele sussurro era reza. Era luto. Era amor.
Silvia Marchiori Buss
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