Nunca Fomos Metade

Eu nunca fui a metade, sempre fui inteira. E ele também. Não dessas inteirezas perfeitas, redondas e sem rachaduras. Mas daquelas inteiras que se fazem no caminho — com falhas, com tropeços, com vontades desalinhadas e esperanças que, vez ou outra, amanheciam encolhidas.

Quando nos encontramos, não era para completar nada. Era para somar. E somamos. Às vezes um pouco torto, é verdade, mas somamos. Nunca fomos daqueles casais que dizem: "ele é minha metade da laranja." Não. Nossa fruta era outra. Tinha caroço, tinha bagaço, tinha gosto agridoce. E mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, era boa.

Se eu fizesse agora a conta da vida, com todas as despesas emocionais e os investimentos feitos em silêncio, acho que a gente ainda estaria no azul. Batendo os débitos e créditos, o saldo não seria perfeito — mas seria nosso. E, olha, os números até sorriem.

Teve dias em que o amor parecia mais um boleto vencido do que um presente embrulhado. E houve outros em que o afeto nos salvou do colapso emocional, feito aquele troco esquecido no bolso do casaco velho que nos livra de um constrangimento no caixa.

Nunca fomos feitos de promessas imortais, mas de gestos pequenos. Ele fazia café no ponto certo do meu amargor. Eu cobria seus pés antes que ele percebesse que estavam frios. E assim, a gente ia vivendo: dois inteiros que se acolhiam sem se consumir.

Não teve revoada nem aplausos quando tudo pareceu esmorecer. Só silêncio. Mas até no silêncio, nos escutávamos. E isso, agora entendo, vale mais do que qualquer euforia passageira.

Talvez um dia perguntem por que durou. Ou por que não durou. E eu, que nunca soube lidar bem com perguntas definitivas, responderei com um leve encolher de ombros. Durou enquanto coube. Enquanto foi possível.

Depois, foi restando só o cuidado em pequenas gavetas: uma toalha de banho dobrada do jeito certo, um livro com marcação na página errada, um bilhete esquecido entre as páginas, com a caligrafia dele, já quase apagada.

Não houve um fim cinematográfico, nem despedidas grandiosas. Só o tempo — esse contador exato — fechando as contas com uma calma que dói. Um dia, ele deixou de voltar. E eu, que sempre fui inteira, continuei.

Não porque sou forte. Mas porque também a ausência, quando é respeitada, sabe ser inteira.

Silvia Marchiori Buss

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora