Feito o Sol e a Lua
Feito o sol e a lua, eles também viveram de encontros raros, mas intensos. Ela era a lua — saliente, cheia de fases, às vezes inteira, às vezes só metade de si. Ele era o sol — constante, cálido, mas às vezes forte demais para caber nos olhos dela. E, ainda assim, amaram-se intensamente: em órbitas distintas, mas com um vínculo que o tempo, o espaço e até a morte hesitam em romper.
Agora,
ele se foi. Partiu como o sol quando mergulha no horizonte, deixando para trás
um rastro de laranja e silêncio. E ela ficou — como a lua — a vagar nas noites
que antes eram feitas de promessas. Espera-o em cada fim de tarde, como quem
ainda acredita que haverá um eclipse qualquer, um milagre de luz, um segundo de
reaproximação.
Mas
há dúvidas.
Será
que ele ainda a vê, lá do outro lado, onde quer que esteja? Será que o amor
resiste à distância entre os mundos? Ou será que foi só ela que permaneceu
orbitando a ausência dele, enquanto ele já seguiu para além do tempo?
Dizem
que o sol e a lua não se tocam, que apenas se olham de longe, em coreografias
milenares. Mas também dizem que, de vez em quando, eles se alinham. E tudo
para. E o mundo silencia. E há sombra, mas também espanto. É o amor deles — tão
antigo quanto o tempo — reaparecendo por um breve instante para lembrar que o
que é verdadeiro não desaparece: apenas muda de forma.
Ela
segue, então. Feito lua, segue.
Carrega
no peito a luz que não é sua, mas que ele deixou. Vive as noites com saudade,
sim — mas também com esperança. Porque amar alguém que se foi é um pouco como
ser lua: viver da memória da luz. E mesmo sem certezas, mesmo com todas as
dúvidas, ela ainda espera...
Que
talvez, quem sabe, no silêncio de algum eclipse da alma, eles se reencontrem.
Nem que seja por um instante eterno.
Silvia Marchiori Buss
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