Calçadas Invisíveis

Ele perambulava pela cidade sem rumo, sem destino. Os passos já não lhe pertenciam — pertenciam ao asfalto, às esquinas, às sombras das marquises. Humilhado pela vida, parecia mais uma dobra do tempo do que um homem. O nome? Talvez fosse Ernesto. Ou Joaquim. Ou nenhum. Fazia tanto tempo que ninguém o chamava que o próprio som de um nome já lhe soava estranho, coisa de um passado que não se lembra se foi sonho ou castigo.

A cidade não o via. Passavam por ele com olhares que escorregavam, como se sua presença fosse erro de cenário. Às vezes, uma criança o notava — havia nisso algo de justo, pois só os pequenos ainda enxergavam o essencial. Mas logo vinham mãos apressadas arrastando a criança e um “não olha pra ele” sussurrado como se fosse maldição.

Tinha fome, claro. Mas era a fome de antes que doía mais: fome de abraço, de janela aberta, de cheiro de café vindo da cozinha. Fome de ser esperado. Aquilo tudo lhe foi tirado aos poucos, como quem desfaz um bordado por dentro, um ponto por dia, até restar apenas o pano cru da solidão.

Às vezes, encostava-se aos postes como quem busca um pouco de firmeza. Outras, sentava-se nas praças olhando os pássaros como quem pede licença à natureza para continuar ali, ocupando um canto do mundo. O rosto, envelhecido além dos anos, carregava os mapas das derrotas que nunca foram notícia.

Teve uma casa, sim. Teve alguém, talvez. Mas a vida, essa mestra impiedosa, virou a mesa sem aviso. Um erro, um silêncio, um abandono, e pronto: o chão desapareceu. Desde então, ele caminhava. Não para chegar, mas para não apodrecer parado.

Certa tarde, parou diante de uma vitrine. Lá dentro, um homem sorria em uma televisão ligada. As pessoas riam. Ele não entendia. O que havia de tão engraçado naquele mundo que o cuspira? Por um instante, seu reflexo apareceu no vidro, e ele quase não se reconheceu. Assustou-se. Não com o rosto em si, mas com a ausência de memória naquele espelho.

Quando a noite caiu, envolveu-se em um cobertor gasto, presente de um grupo de caridade que passou meses atrás. Deitou-se sob uma marquise qualquer e olhou para o céu. Lá em cima, as estrelas também pareciam vagar, mas com um brilho que ele já não carregava. “Será que alguém ainda me espera em algum lugar?”, pensou. E então chorou sem se esconder.

Na manhã seguinte, o sol nasceu. Os carros passaram. A cidade seguiu. E ele, invisível, ergueu-se do chão mais uma vez.

Porque mesmo quem já perdeu tudo ainda tem o peso do corpo para carregar. E um nome esquecido que insiste em caminhar.


Silvia Marchiori Buss

 

 

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