A Mulher e a Força de Seu Amor
Ela já amou pessoas que se foram. Amou os filhos quando ainda eram ventre e depois quando se tornaram mundo. Amou homens, causas, bichos, plantas, a casa, as dores, os silêncios. Amou, inclusive, aquilo que não entendia.
Mas
o que sustentava tudo isso — o que a mantinha em pé mesmo nos dias em que o
corpo pedia rendição — era seu amor pela vida.
Não
era um amor barulhento. Não precisava ser. Era feito de gestos pequenos: o café
passado antes do sol nascer, o cuidado com as palavras, o toque nos ombros
alheios. Ela amava a vida quando pendurava roupas no varal, quando cantava
baixinho no tanque, quando chorava de mansinho sem que ninguém visse.
Ela
aprendeu a amar a vida mesmo quando a vida não parecia lhe amar de volta. Nos
lutos, nos sustos, nas ausências. A cada tropeço, levantava com mais silêncio
do que revolta, mais ternura do que raiva. Porque havia nela uma fé que não era
religiosa, era visceral — a fé de que viver ainda valia a pena, mesmo com todas
as rachaduras.
A
vida nunca lhe prometeu facilidade. Mas ela, em sua coragem de mulher,
continuou plantando girassóis onde só havia terra seca. Continuou acreditando
que as manhãs podiam ser mais do que repetições de rotinas. Porque amar a vida,
para ela, não era uma escolha consciente — era um instinto, um jeito de
permanecer inteira mesmo quando o mundo parecia querer parti-la ao meio.
Ela
era uma mulher comum. Daquelas que o tempo não poupa, que a história não narra,
mas que seguram o mundo com seus braços sem alarde. E talvez seja isso que a
torne tão imensa: ela não precisava ser lembrada para fazer valer a vida.
Ela
era a própria força disfarçada de amor.
Silvia
Marchiori Buss
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