Vidas Invisíveis
Ninguém sabia o nome da mulher que varria a calçada da escola às cinco da manhã. Ela chegava antes do sol, com uma vassoura gasta, um boné desbotado com a propaganda de algum vereador, e passos que pareciam pedir desculpas por existirem. Era sempre vista, mas nunca notada. Como se o mundo a enxergasse apenas pela borda do olhar.
Chamavam-na de “a moça da limpeza”, mesmo que ela já tivesse rugas profundas e os joelhos gastos pelo tempo e pela lida. Nunca faltava, nunca reclamava. Às vezes, cantava baixinho para espantar o silêncio – um canto antigo, talvez herdado de alguma avó analfabeta que também fora invisível.
No mesmo bairro, vivia o seu João – porteiro de um prédio onde ninguém lembrava seu sobrenome. Ele sabia o nome de todos os moradores, os horários dos filhos, os hábitos dos cachorros e as manias das madames. Recebia presentes de Natal com etiquetas escritas às pressas: “Para o porteiro”. Nunca para “João”.
Ele lia jornal velho no intervalo da tarde, levava sanduíche embrulhado em guardanapo de padaria. Quando o interfone tocava com impaciência, ele respondia com gentileza. Quando não tocava, ele apenas esperava. Era um guardião silencioso da rotina alheia.
No cruzamento da Rua Aurora com a Travessa dos Jacarandás, havia ainda Dona Amália. Morava sozinha num sobradinho que resistia ao tempo e aos aluguéis. Antiga costureira, seus dedos ainda dançavam sobre os tecidos como quem borda memórias. Costurava de tudo, mas ninguém mais encomendava nada. As vitrines brilhantes e convidativas do centro tinham acabado com suas agulhas.
Certa vez, uma menina se perdeu na rua. Foi Dona Amália quem a encontrou chorando perto da banca de revistas. Ofereceu colo, pãozinho quente e histórias inventadas. A mãe chegou aflita, agarrou a filha e saiu sem mesmo agradecer. Amália ficou com o prato na mão, sorrindo para o vazio.
E havia também o Professor Arnaldo. Velho, aposentado, corpo curvado como quem ainda carrega na coluna os nomes que ajudou a formar. Fora mestre de engenheiros, advogados, médicos. Muitos hoje famosos, endinheirados. Nenhum lhe escreve no aniversário.
Aposentaram-no sem festa, como se sua ausência fosse uma reorganização natural da sala de aula. Sua casa cheira a livros guardados e chá morno. A campainha não toca há meses.
Sua única distração é o cinema da esquina, aonde vai todos os sábados. Senta-se na última fileira, sempre sozinho, e ali se reinventa: herói, bandido, amante, astronauta, detetive, poeta. Dentro da escuridão da sala, ninguém o julga pela idade ou pela roupa puída. Ali, ele vive mil vidas, enquanto a sua passa invisível pela cidade que um dia educou.
Essas quatro vidas – a da mulher da escola, a do porteiro, a da costureira e a do velho professor – se cruzam, às vezes, em acenos tímidos, em compras no mercadinho, em cumprimentos murmurados. Nunca foram notícia, nunca receberam homenagens. Mas, sem elas, o bairro seria outro. Mais sujo. Mais frio. Mais perdido.
O mundo não as vê por que não quer ver. Mas são elas que seguram a alma das cidades pelos cantos – varrendo calçadas, segurando portões, costurando ternura no silêncio dos dias, ensinando mesmo quando já não se está na lousa.
E quando, um dia, forem embora sem alarde, talvez alguém perceba... que estava cercado de vidas invisíveis.
Chamavam-na de “a moça da limpeza”, mesmo que ela já tivesse rugas profundas e os joelhos gastos pelo tempo e pela lida. Nunca faltava, nunca reclamava. Às vezes, cantava baixinho para espantar o silêncio – um canto antigo, talvez herdado de alguma avó analfabeta que também fora invisível.
No mesmo bairro, vivia o seu João – porteiro de um prédio onde ninguém lembrava seu sobrenome. Ele sabia o nome de todos os moradores, os horários dos filhos, os hábitos dos cachorros e as manias das madames. Recebia presentes de Natal com etiquetas escritas às pressas: “Para o porteiro”. Nunca para “João”.
Ele lia jornal velho no intervalo da tarde, levava sanduíche embrulhado em guardanapo de padaria. Quando o interfone tocava com impaciência, ele respondia com gentileza. Quando não tocava, ele apenas esperava. Era um guardião silencioso da rotina alheia.
No cruzamento da Rua Aurora com a Travessa dos Jacarandás, havia ainda Dona Amália. Morava sozinha num sobradinho que resistia ao tempo e aos aluguéis. Antiga costureira, seus dedos ainda dançavam sobre os tecidos como quem borda memórias. Costurava de tudo, mas ninguém mais encomendava nada. As vitrines brilhantes e convidativas do centro tinham acabado com suas agulhas.
Certa vez, uma menina se perdeu na rua. Foi Dona Amália quem a encontrou chorando perto da banca de revistas. Ofereceu colo, pãozinho quente e histórias inventadas. A mãe chegou aflita, agarrou a filha e saiu sem mesmo agradecer. Amália ficou com o prato na mão, sorrindo para o vazio.
E havia também o Professor Arnaldo. Velho, aposentado, corpo curvado como quem ainda carrega na coluna os nomes que ajudou a formar. Fora mestre de engenheiros, advogados, médicos. Muitos hoje famosos, endinheirados. Nenhum lhe escreve no aniversário.
Aposentaram-no sem festa, como se sua ausência fosse uma reorganização natural da sala de aula. Sua casa cheira a livros guardados e chá morno. A campainha não toca há meses.
Sua única distração é o cinema da esquina, aonde vai todos os sábados. Senta-se na última fileira, sempre sozinho, e ali se reinventa: herói, bandido, amante, astronauta, detetive, poeta. Dentro da escuridão da sala, ninguém o julga pela idade ou pela roupa puída. Ali, ele vive mil vidas, enquanto a sua passa invisível pela cidade que um dia educou.
Essas quatro vidas – a da mulher da escola, a do porteiro, a da costureira e a do velho professor – se cruzam, às vezes, em acenos tímidos, em compras no mercadinho, em cumprimentos murmurados. Nunca foram notícia, nunca receberam homenagens. Mas, sem elas, o bairro seria outro. Mais sujo. Mais frio. Mais perdido.
O mundo não as vê por que não quer ver. Mas são elas que seguram a alma das cidades pelos cantos – varrendo calçadas, segurando portões, costurando ternura no silêncio dos dias, ensinando mesmo quando já não se está na lousa.
E quando, um dia, forem embora sem alarde, talvez alguém perceba... que estava cercado de vidas invisíveis.
Silvia Marchiori Buss

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