Tudo Que Não Podemos Ver

Ninguém viu quando ela caiu.

A rua estava molhada — não de chuva, mas de uma neblina fria que grudava nas pedras como suor velho. Era terça-feira. Poderia ter sido qualquer outro dia, mas foi terça, e isso importava pra ela. Terças eram os dias em que ele não voltava para casa ou voltava bêbado.

Carla descia a Rua São Vicente com a sacola plástica cortando seus dedos. Dentro, pão dormido, duas latas de sardinha e um pacote de biscoito quebrado. O homem da venda lhe deu desconto por pena — ou porque queria que ela saísse logo dali. Não faz diferença.

Quando tropeçou no meio-fio e caiu, não foi só o corpo que tocou o chão. A sacola estourou, os biscoitos se espalharam, e, por um segundo, ela ficou parada, olhando para o céu pálido e sem forma, como quem espera que alguma coisa caia de volta.

— Tá tudo bem? — perguntou uma voz atrás dela, apressada.
Ela fez que sim com a cabeça. Levantou-se devagar. Ninguém a ajudou.

Carla não chorava mais fazia tempo. Desde o último hospital, o último “não foi possível salvar”, o último ultrassom que mostrava um coração parado. Desde então, chorava só por dentro — mas isso ninguém via. Nem ele.

Quando chegou em casa, o som da televisão estava alto. Ele dormia no sofá, como de costume, com a boca entreaberta e o corpo ainda meio cheio de alguma bebida que ela não saberia nomear.

Passou por ele sem dizer nada. Entrou no banheiro, trancou a porta. Ficou ali sentada na tampa do vaso, ouvindo os canos rangerem, o som do noticiário passando por baixo da porta, o mundo continuando.

Pensou em ligar para a mãe. Pensou em ir embora. Pensou em nada.

E foi assim, naquele silêncio surdo, que ela percebeu: não havia milagre, não havia redenção, não havia luz no fim do seu túnel. Só o cansaço — velho e viscoso — que grudava nos ossos e não largava mais.

Naquela noite, Carla dormiu com as roupas do dia. O cheiro da rua nos cabelos e um gosto de limo na boca. Quando acordou, ele já tinha saído. A terça-feira tinha virado quarta.
E tudo continuava ali. Invisível.
Pensando.

Na quarta-feira, ela não saiu. Levantara-se tarde, com o sol cortando a janela como uma navalha cega. O travesseiro estava molhado de suor — ou lágrimas. Ela já não distinguia mais. O som da rua subia como um sussurro torto: passos, buzinas, uma briga distante.

Carla ficou deitada por horas. O estômago roncava, mas ela não se movia. Lembrou do pão dormido na mesa da cozinha, lembrou das migalhas dos biscoitos espalhadas por ali. Pensou em varrer tudo, mas não se levantou.

Ao meio-dia, o telefone tocou. Três vezes. Parou. Tocou de novo. Uma mensagem. Depois, silêncio.
Não era ele. Ele nunca ligava.

Lembrou do rosto da irmã. Fazia meses que não se viam. Lembrou do enterro do irmão — o vestido preto que não servia mais, o café frio na sacristia, o vazio depois.

O corpo pesava. As mãos frias. O tempo, imóvel.

Levantou só quando a luz começou a sumir. A casa inteira era um corpo morto: tudo parado, tudo úmido, tudo com cheiro de ontem. Ela abriu a janela. A rua seguia como se ela não existisse.

No chão da cozinha, as migalhas de ontem pareciam uma oferenda a um deus qualquer. Ela varreu em silêncio. Lavou o rosto. Encarou o espelho por um segundo a mais do que devia.

Ali estava ela: os olhos fundos, a boca seca, o cabelo amassado como se tivesse dormido no mundo.

Não havia nada de novo ali. Só a mesma mulher, andando de um lado pro outro dentro da própria cabeça, como se pudesse sair, se encontrasse a porta certa.

No fim da noite, ela se sentou no chão da sala. O sofá ainda cheirava a suor velho. Ele não voltou. Quarta era dia incerto. Às vezes vinha, às vezes não.

Carla apagou a luz. Ficou ali no escuro, ouvindo a respiração da casa.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu medo.
Não do escuro.
Mas de que talvez, no fundo, ninguém notasse se ela deixasse de existir.



Silvia Marchiori Buss

 

 

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