Quando é Dia de Renascer
Ninguém avisou a Cecília que aquele seria o dia.
Acordou com a mesma dor no quadril, a mesma xícara de louça lascada, o mesmo rádio chiando música antiga na cozinha. O espelho refletia os mesmos vincos que o tempo desenhou em seu rosto. E o gato, preguiçoso e indiferente, ainda dormia em cima das cartas que ela nunca teve coragem de abrir.
Mas havia algo no ar. Uma espécie de silêncio diferente. Como se o mundo estivesse segurando a respiração.
Era um sábado, como tantos outros. Só que dessa vez, ao abrir a janela, Cecília não apenas viu o dia: ela se viu. Pela primeira vez em muito tempo. Ali, inteira, apesar das ausências. Viva, apesar das mortes.
Foi até o armário, separou um vestido que não usava desde os tempos de namoro. Azul, de bolinhas brancas, marcado pela cintura. Ainda servia, ainda a fazia sorrir.
Desceu devagar os degraus da casa, atravessou a praça onde ninguém mais a reconhecia e comprou flores. Para si. Margaridas. Suas preferidas. Depois, parou na porta da igreja onde fora casada, chorou sem pressa, sem vergonha, e deixou ali um bilhete dentro da bolsa que nunca mais usaria: “Hoje renasci. Por mim. Porque ele se foi, mas eu fiquei.”
Na volta, assobiou uma canção esquecida e sorriu para o moço da banca, que retribuiu com um “bom dia” quase tímido.
Ninguém percebeu, mas Cecília havia renascido.
E o mundo, mesmo sem anunciar, soube.
Acordou com a mesma dor no quadril, a mesma xícara de louça lascada, o mesmo rádio chiando música antiga na cozinha. O espelho refletia os mesmos vincos que o tempo desenhou em seu rosto. E o gato, preguiçoso e indiferente, ainda dormia em cima das cartas que ela nunca teve coragem de abrir.
Mas havia algo no ar. Uma espécie de silêncio diferente. Como se o mundo estivesse segurando a respiração.
Era um sábado, como tantos outros. Só que dessa vez, ao abrir a janela, Cecília não apenas viu o dia: ela se viu. Pela primeira vez em muito tempo. Ali, inteira, apesar das ausências. Viva, apesar das mortes.
Foi até o armário, separou um vestido que não usava desde os tempos de namoro. Azul, de bolinhas brancas, marcado pela cintura. Ainda servia, ainda a fazia sorrir.
Desceu devagar os degraus da casa, atravessou a praça onde ninguém mais a reconhecia e comprou flores. Para si. Margaridas. Suas preferidas. Depois, parou na porta da igreja onde fora casada, chorou sem pressa, sem vergonha, e deixou ali um bilhete dentro da bolsa que nunca mais usaria: “Hoje renasci. Por mim. Porque ele se foi, mas eu fiquei.”
Na volta, assobiou uma canção esquecida e sorriu para o moço da banca, que retribuiu com um “bom dia” quase tímido.
Ninguém percebeu, mas Cecília havia renascido.
E o mundo, mesmo sem anunciar, soube.

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