Pequenas Coisas
Na cidadezinha de São Felício do Vale, as manhãs começavam sempre com o cheiro de pão saindo do forno da Dona Carminda, que abria a padaria às cinco e meia – nem um minuto a mais. O sino da igreja tocava às seis, mesmo que ninguém estivesse lá dentro, e o som se espalhava como se quisesse acordar até as galinhas mais teimosas.
Era uma cidade feita de pequenas coisas.
Na praça, o Sr. Ananias, de boina e jornal dobrado debaixo do braço, alimentava os pombos com farelos que trazia de casa. Sempre os mesmos farelos, sempre os mesmos pombos. As crianças corriam descalças em volta do coreto – e ninguém se importava com a poeira nos pés. Aliás, poeira era um elemento constante, quase um personagem, pousando nos móveis, nas folhas dos cadernos, nos bancos da igreja.
A cidade tinha uma barbearia com um só barbeiro, uma escola com três professoras e um posto de saúde onde Dona Alzira media a pressão de todo mundo – mesmo quando ninguém pedia. Era o tipo de cuidado que não se aprende na faculdade, mas que se espalha feito erva-doce: discreto, mas persistente.
Na vendinha do Seu Aderbal, fiado era anotado num caderno de capa azul, e ele nunca cobrava ninguém com pressa. “A gente acerta no fim do mês ou no começo da próxima vida”, dizia, com um sorriso que nascia com o sol.
Na rádio comunitária, tocava forró, samba, um pouco de notícia e um tanto de recado: Dona Elza perdeu uma carteira verde na pracinha, quem encontrou favor devolver”, Seu Zequinha avisa que vai matar um porco sábado e aceita encomenda de linguiça”. E por incrível que pareça, essas coisas importavam. Essas notícias mexiam com a cidade mais do que qualquer manchete nacional.
Havia também as janelas abertas no fim de tarde, com cheiro de café misturado ao barulho das novelas. Gente sentada nas calçadas, comentando o tempo, o sumiço da chuva ou a volta do filho da Dona Íris, que morava “lá pra bandas de São Paulo”.
Tudo acontecia devagar, mas não por preguiça: era pelo prazer de ver a vida passar com mais tempo de observação.
E quando a noite chegava, com seus grilos e faróis de moto riscando o escuro, as luzes das casas iam se apagando uma a uma, como se cada lâmpada dissesse “até amanhã”.
Era só isso. Mas era tudo.
Pequenas coisas.
Que, vistas de perto, eram enormes.
Era uma cidade feita de pequenas coisas.
Na praça, o Sr. Ananias, de boina e jornal dobrado debaixo do braço, alimentava os pombos com farelos que trazia de casa. Sempre os mesmos farelos, sempre os mesmos pombos. As crianças corriam descalças em volta do coreto – e ninguém se importava com a poeira nos pés. Aliás, poeira era um elemento constante, quase um personagem, pousando nos móveis, nas folhas dos cadernos, nos bancos da igreja.
A cidade tinha uma barbearia com um só barbeiro, uma escola com três professoras e um posto de saúde onde Dona Alzira media a pressão de todo mundo – mesmo quando ninguém pedia. Era o tipo de cuidado que não se aprende na faculdade, mas que se espalha feito erva-doce: discreto, mas persistente.
Na vendinha do Seu Aderbal, fiado era anotado num caderno de capa azul, e ele nunca cobrava ninguém com pressa. “A gente acerta no fim do mês ou no começo da próxima vida”, dizia, com um sorriso que nascia com o sol.
Na rádio comunitária, tocava forró, samba, um pouco de notícia e um tanto de recado: Dona Elza perdeu uma carteira verde na pracinha, quem encontrou favor devolver”, Seu Zequinha avisa que vai matar um porco sábado e aceita encomenda de linguiça”. E por incrível que pareça, essas coisas importavam. Essas notícias mexiam com a cidade mais do que qualquer manchete nacional.
Havia também as janelas abertas no fim de tarde, com cheiro de café misturado ao barulho das novelas. Gente sentada nas calçadas, comentando o tempo, o sumiço da chuva ou a volta do filho da Dona Íris, que morava “lá pra bandas de São Paulo”.
Tudo acontecia devagar, mas não por preguiça: era pelo prazer de ver a vida passar com mais tempo de observação.
E quando a noite chegava, com seus grilos e faróis de moto riscando o escuro, as luzes das casas iam se apagando uma a uma, como se cada lâmpada dissesse “até amanhã”.
Era só isso. Mas era tudo.
Pequenas coisas.
Que, vistas de perto, eram enormes.
Silvia Marchiori Buss

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