O Vulcão Adormecido

Ela acorda como um vulcão à beira da erupção.

Há uma energia crua sob sua pele, um impulso que a faz acreditar, mesmo que por instantes, que tudo pode acontecer. É ali, no intervalo entre os lençóis e o primeiro gole de café, que o mundo parece possível — e ela, poderosa. O coração pulsa com força, a mente acende, e até o espelho a trata com uma certa reverência.
Hoje vai ser diferente, pensa.

Mas o dia começa a chegar com seus pequenos desgastes.
Uma palavra atravessada, um olhar distraído, uma espera longa demais.
A lava que antes borbulhava agora recua, tímida, como se pedisse desculpas por existir.
Ela continua — faz o que se espera, responde, cumpre, organiza, sorri. Mas dentro dela, um calor persistente se espalha, não em festa, mas em febre.

Ao meio-dia, o vulcão já não ameaça.
É só uma montanha cansada, silenciosa, fingindo paz.

Ela não explode. Arde.
Vai queimando devagar, como um fogo que não encontrou vento.

E quando a noite chega, ela quase esquece que já foi fogo. Que era magma e força e luz.
Agora, tudo nela é cinza que ainda fumaça. Um sopro de lembrança do que poderia ter sido.

Mas amanhã, quem sabe — no breve instante entre o despertar e o mundo — o vulcão lembre.
E, mesmo que por pouco, volte a ferver.

Silvia Marchiori Buss

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