O Sentido Que Não Se Explica

Há dias em que a existência parece uma peça mal escrita, sem roteiro claro nem desfecho coerente. Trabalhamos, amamos, criamos laços, suportamos perdas, enfrentamos rotinas — e mesmo assim, a pergunta retorna, persistente, como uma goteira no meio da madrugada: para que tudo isso?

Desde cedo nos ensinam que viver é cumprir etapas. Crescer, estudar, encontrar um amor, construir uma família, batalhar por uma carreira, acumular conquistas. E então, quando enfim chegamos a um ponto em que poderíamos descansar um pouco, olhar o horizonte sem sobressaltos, vem a vida — ou a morte — e desfaz tudo como um castelo de cartas derrubado pelo vento.

Às vezes penso que a vida é generosa só o suficiente para nos fazer acreditar que vale a pena… e cruel o bastante para nos roubar quando começamos a nos acostumar com ela. Porque quando as dores começam a cicatrizar, quando o caos dá lugar a uma certa ordem, é aí que perdemos alguém. Ou somos nós os levados. E então tudo aquilo que era rotina vira ausência. Tudo o que era presença vira saudade. E o que parecia eterno revela sua fragilidade: uma fotografia desbotada, um cheiro que a memória insiste em guardar, uma caneca esquecida no armário.

Talvez seja isso o que restamos: vestígios. Não há justiça nesse ciclo. Só continuidade.

E, sim, há quem encontre alívio em acreditar que existe um outro plano, uma continuidade em outro tempo ou espaço. Talvez exista. Mas não é disso que falo aqui. Falo daquilo que nos atravessa mesmo quando não acreditamos em nada. Da pergunta que ecoa mesmo na alma mais cética: vale mesmo a pena tudo isso, se no fim viramos poeira e lembrança?

Às vezes, nem a fé consola, nem a razão sustenta. O que resta é um silêncio espesso, quase físico, como um cobertor molhado. Um vazio que não se explica, mas também não se ignora.

E ainda assim — veja só — a gente continua. Por quê? Talvez por teimosia. Talvez porque a vida tem seus instantes de beleza que não se explicam, mas nos seguram. Porque apesar de tudo, há o dia em que alguém sorri pra nós sem motivo. Há a música que toca justo quando mais precisamos. Há um abraço inesperado, uma palavra que chega na hora exata. Há a luz da manhã atravessando a cortina com a delicadeza de quem não quer acordar ninguém, mas insiste em existir.

Essas coisas não respondem às perguntas, é verdade. Mas oferecem um tipo de trégua.

E se não for o bastante — se o absurdo continuar batendo à porta — que pelo menos reste a dignidade de olhar para trás e dizer, com a voz firme de quem não se omitiu:
“Eu estive aqui. E, apesar do cansaço, da dor e da falta de sentido, eu vivi.”

Silvia Marchiori Buss

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