O Que Não Sei de Você

Eles estavam juntos há anos. Quantos, exatamente? Nem sabiam mais. Não porque o tempo tivesse apagado as datas, mas porque o que contava mesmo eram os intervalos entre os dias – os silêncios partilhados, os olhares cúmplices, os cafés esquecidos no micro-ondas, as mãos que se procuravam no escuro, mesmo depois de uma briga.

Viviam naquele apartamento com vista para o nada – ou para tudo, dependendo do humor do céu. A rotina era feita de pequenas repetições: ela colocava açúcar demais no café dele, ele esquecia a toalha em cima da cama. Ela lia romances à noite, ele dormia no meio do segundo parágrafo. Mas havia amor. Não o amor das capas de revista, mas o amor dos detalhes – aquele que não grita, mas permanece.

Num desses fins de semana de tarde com cheiro de chuva, ela o olhou demoradamente. Ele lia o jornal como se o mundo ainda estivesse nas páginas. E ela pensou: “Quantas coisas eu ainda não sei dele?”

Não sabia, por exemplo, o que ele pensava quando olhava para a janela por longos minutos, ou o que o fazia suspirar no meio do sono. Não sabia do sonho que ele teve aos vinte e poucos anos e nunca contou a ninguém, nem da lembrança que ainda o fazia sorrir sozinho. Ela sabia os horários dos remédios, o nome do primeiro cachorro dele, o prato favorito. Mas não sabia o que ele faria se pudesse voltar no tempo por um dia.

Ela se levantou devagar, pegou uma xícara limpa e serviu café – com açúcar demais. Sentou-se ao lado dele, encostou a cabeça em seu ombro e disse baixinho:
– Amor... o que é que eu ainda não sei de você?

Ele demorou a responder. Fez aquele gesto antigo de ajeitar os óculos, dobrou o jornal e disse:
– Talvez você não saiba que eu ainda me apaixono por você todo dia. Mesmo nos dias em que você me irrita. Mesmo quando você não me escuta. Mesmo quando nem eu me aguento.

Ela sorriu. E pensou que talvez o amor fosse isso: não saber tudo, mas seguir querendo descobrir. Um dia por vez. Um mistério de cada vez. Até o fim – ou até o recomeço.



Silvia Marchiori Buss

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