O Pescador e o Rio

João acordava antes da luz. Aos setenta anos, o corpo já doía antes mesmo de sair da cama, mas ele sorria, como quem guarda um segredo só seu. Vestia a camisa de algodão surrada, colocava o boné desbotado e descia a trilha estreita até o barranco, onde sua velha canoa de madeira dormia encostada nas raízes de um salgueiro.

O rio rugia, como sempre. Correntezas vivas, às vezes violentas, outras suaves como prece. Era o único som que João ouvia de verdade. O resto — buzinas, gritos de jornal, sirenes e promessas na televisão — era barulho.

A canoa deslizava entre as pedras como se conhecesse cada desvio, cada remanso. João deixava-se levar, anzol na água e o olhar perdido no vai-e-vem da corrente. Era ali, sobre as águas em movimento, que ele desatava os nós do peito.

Não pescava por necessidade. O peixe que pegava era quase sempre devolvido ao rio. Às vezes levava um ou outro pra vizinha, dona Ilda, que criava dois netos sozinha. João pescava para lembrar quem era. Para ouvir os pensamentos que só se revelavam na solidão das margens.

— Tanta água, tanta fartura — murmurava, os olhos seguindo uma garça que pousava adiante — e o povo morrendo de sede.

Lembrava-se das notícias: crianças cavando o chão seco em busca de lama para beber. Cidades afogadas em lixo. Gente, trocando dignidade por prato de comida. E tudo isso a poucos quilômetros daquele rio que dançava livre, como se zombasse da miséria dos homens.

João suspirava. Não se sentia melhor do que ninguém. Carregava seus erros, suas ausências, as falas que nunca teve coragem de dizer, os afetos que perdeu por não saber cuidar. Mas agora, velho e silencioso, tudo nele parecia pedir perdão.

— O mundo perdeu o compasso, meu velho — falava baixo, como se o rio pudesse escutar — confundiu valor com preço. Trocaram ternura por poder, chão por concreto, pão por ambição.

A canoa passou rente a uma pedra coberta de limo. João lembrou do menino que fora, pulando entre aquelas pedras, o estilingue na mão e a barriga roncando. Nunca soube direito o nome do pai. A mãe lhe dera o pouco que tinha: coragem e paciência.

Um peixe beliscou a linha. João sorriu. Não puxou de imediato. Esperou. O tempo lhe ensinara que há momentos em que se perde por pressa. Soltou a linha devagar e deixou o bicho escapar. — Vai, amigo. Ainda não é sua hora.

Mais adiante, parou a canoa perto de um banco de areia. Ficava ali por horas, escutando a linguagem que só a água sabia falar. Quando o vento soprava do Sul, vinha um cheiro de queimado da cidade. João sabia o que era: mais uma favela queimada, mais um protesto desfeito na força, mais uma vida apagada sem nome.

— Eles querem apagar o que não entendem. Mas esquecem que o rio também guarda a lama. E a lama, quando se levanta, arrasta tudo.

Não havia raiva na voz dele. Só tristeza. Uma tristeza antiga, profunda, como tronco de árvore que cresce torto, mas floresce.

Ao entardecer, o céu derramava cores sobre a superfície do rio. João se recolhia, voltando para casa com o coração menos pesado. Não porque o mundo tivesse melhorado, mas porque, de algum modo, o rio lhe dizia: “você ainda está aqui, e isso importa”.

Chegava em casa e escrevia em pequenos cadernos. Nada demais. Frases soltas. Ideias. Rabiscos sobre a fome que não devia existir, sobre a beleza que ainda resistia no sorriso de uma criança ou na flor que nascia entre os escombros. Guardava tudo numa caixa de madeira embaixo da cama.

— Se um dia alguém quiser saber o que senti — dizia, ajeitando o travesseiro — vai saber que não fui indiferente.

E dormia. Ao som do rio. Ao som do mundo que corria rápido demais, mas que ali, naquela margem, ainda podia ser escutado.




Silvia Marchiori Buss

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