O Beijo Nunca Dado
Era um banco de praça o cenário. Um desses antigos, de madeira gasta, onde o tempo se acomoda entre os veios da tinta descascada. Aos sábados, Carmem gostava de sentar-se ali, entre os canteiros de azaléas e o burburinho preguiçoso da feira ao longe. Sempre às dez. Sempre sozinha.
E havia ele. Gabriel. O homem das mãos largas, do passo contido, da camisa branca com a gola sempre um pouco torta. Vinha caminhando com a lentidão dos que não têm pressa porque sabem que o destino os espera no mesmo lugar. E se sentava. Dois bancos adiante, na mesma linha, como se obedecessem a uma partitura muda.
Nunca trocaram palavras. Apenas olhares. E, às vezes, sorrisos quase invisíveis. O mundo inteiro podia ter desabado em volta, mas ali, entre os dois, existia uma pausa. Um intervalo do real. Um quase.
Carmem inventava histórias para ele. Imaginava-o viúvo. Ou um homem de promessas quebradas. Ou talvez alguém que, como ela, colecionasse silêncios. Mas no fundo, sabia. Sabia desde a primeira vez que notou a aliança em sua mão esquerda. A aliança e o modo respeitoso com que ele desviava os olhos quando a tarde os encurtava demais.
Ela também era casada. E não infeliz. Havia carinho, havia respeito — mas havia também um lugar vazio, desses que não se preenchem com afeto correto nem jantares em silêncio. Um espaço onde o desejo encosta a cabeça e espera em vão ser reconhecido.
O que havia entre ela e Gabriel era anterior a qualquer toque. Era feito de insinuações, da maneira como ele ajustava a manga da camisa, do modo como ela fingia ler o livro só para estar ali. Um ritual sem datas, sem promessas, sem desfecho.
Mas houve um dia. Um só.
Foi numa noite morna, no salão do Clube da cidade. Um desses bailes mensais, com orquestra de velhos músicos e casais que rodavam entre valsas e boleros como se estivessem vivendo dentro de um filme antigo. Carmem fora com o marido, como sempre. Ele também estava lá, ao lado da esposa, mulher discreta e gentil que ria baixo e dançava pouco.
Quando anunciaram a troca de pares, como era tradição nas noites de dança, ela hesitou. Tentou escapar. Mas não deu tempo. Quando deu por si, estava nos braços dele. Gabriel.
Por alguns compassos, o mundo saiu do lugar.
Os dois sabiam dançar. E sabiam, acima de tudo, não ultrapassar a linha. Mas havia uma corrente invisível que ligava suas peles. O calor de uma proximidade há tanto sonhada. Ela sentiu a respiração dele em seu pescoço. Ele, o perfume dela guardado na memória da praça. As mãos dele seguravam-na com firmeza, e por um segundo — apenas um — os olhos se encontraram como se pedissem perdão antecipado pelo que não ousariam fazer.
Foi ali, na curva de um bolero, que o beijo quase aconteceu.
Quase.
Mas Gabriel afastou-se um pouco. Com delicadeza. Com dor. Tocou o ombro dela como quem devolve uma flor ao seu caule, e terminou a dança em silêncio. Quando o par se desfez, não houve agradecimento, nem sorriso. Apenas um afastamento súbito. A distância que voltava ao lugar como uma fronteira reconstituída.
Depois daquela noite, ela não o viu por semanas. Achou que ele evitava a praça. Ou a si mesmo. Ou o que quase foi.
Até o dia em que ele voltou, como antes. Sentou-se no mesmo banco. Não houve gesto, nem palavra. Mas naquele dia, ela soube: não haveria mais tentativas. Havia, entre eles, o que vive na margem das escolhas. E é justamente ali que moram as histórias mais profundas — nas que não se completam.
Até o dia em que ele não veio.
Carmem chegou no horário de sempre. Sentou-se. Esperou. Reviu mentalmente os passos dele, o som das folhas esmagadas sob os sapatos, o instante em que ele ajeitava a gola — e nada. Esperou até o sol mudar de lado. Depois, por hábito, voltou nos dias seguintes. Nenhuma notícia. Nenhuma carta. Nenhuma morte publicada nos jornais. Apenas o vazio no banco dois.
Ela não chorou. Guardou para si o que não foi, com a mesma delicadeza com que se dobra um lenço antigo. E continuou indo à praça, não por esperança — mas por respeito àquilo que quase existiu.
Porque havia algo mais forte do que o amor vivido:
o amor que não se ousou viver.
O beijo nunca dado.
E talvez, por isso, ele ainda morasse ali.
Na curva do vento.
No espaço entre os bancos.
Na respiração contida de quem, mesmo sem tocar, sentiu o beijo.
E havia ele. Gabriel. O homem das mãos largas, do passo contido, da camisa branca com a gola sempre um pouco torta. Vinha caminhando com a lentidão dos que não têm pressa porque sabem que o destino os espera no mesmo lugar. E se sentava. Dois bancos adiante, na mesma linha, como se obedecessem a uma partitura muda.
Nunca trocaram palavras. Apenas olhares. E, às vezes, sorrisos quase invisíveis. O mundo inteiro podia ter desabado em volta, mas ali, entre os dois, existia uma pausa. Um intervalo do real. Um quase.
Carmem inventava histórias para ele. Imaginava-o viúvo. Ou um homem de promessas quebradas. Ou talvez alguém que, como ela, colecionasse silêncios. Mas no fundo, sabia. Sabia desde a primeira vez que notou a aliança em sua mão esquerda. A aliança e o modo respeitoso com que ele desviava os olhos quando a tarde os encurtava demais.
Ela também era casada. E não infeliz. Havia carinho, havia respeito — mas havia também um lugar vazio, desses que não se preenchem com afeto correto nem jantares em silêncio. Um espaço onde o desejo encosta a cabeça e espera em vão ser reconhecido.
O que havia entre ela e Gabriel era anterior a qualquer toque. Era feito de insinuações, da maneira como ele ajustava a manga da camisa, do modo como ela fingia ler o livro só para estar ali. Um ritual sem datas, sem promessas, sem desfecho.
Mas houve um dia. Um só.
Foi numa noite morna, no salão do Clube da cidade. Um desses bailes mensais, com orquestra de velhos músicos e casais que rodavam entre valsas e boleros como se estivessem vivendo dentro de um filme antigo. Carmem fora com o marido, como sempre. Ele também estava lá, ao lado da esposa, mulher discreta e gentil que ria baixo e dançava pouco.
Quando anunciaram a troca de pares, como era tradição nas noites de dança, ela hesitou. Tentou escapar. Mas não deu tempo. Quando deu por si, estava nos braços dele. Gabriel.
Por alguns compassos, o mundo saiu do lugar.
Os dois sabiam dançar. E sabiam, acima de tudo, não ultrapassar a linha. Mas havia uma corrente invisível que ligava suas peles. O calor de uma proximidade há tanto sonhada. Ela sentiu a respiração dele em seu pescoço. Ele, o perfume dela guardado na memória da praça. As mãos dele seguravam-na com firmeza, e por um segundo — apenas um — os olhos se encontraram como se pedissem perdão antecipado pelo que não ousariam fazer.
Foi ali, na curva de um bolero, que o beijo quase aconteceu.
Quase.
Mas Gabriel afastou-se um pouco. Com delicadeza. Com dor. Tocou o ombro dela como quem devolve uma flor ao seu caule, e terminou a dança em silêncio. Quando o par se desfez, não houve agradecimento, nem sorriso. Apenas um afastamento súbito. A distância que voltava ao lugar como uma fronteira reconstituída.
Depois daquela noite, ela não o viu por semanas. Achou que ele evitava a praça. Ou a si mesmo. Ou o que quase foi.
Até o dia em que ele voltou, como antes. Sentou-se no mesmo banco. Não houve gesto, nem palavra. Mas naquele dia, ela soube: não haveria mais tentativas. Havia, entre eles, o que vive na margem das escolhas. E é justamente ali que moram as histórias mais profundas — nas que não se completam.
Até o dia em que ele não veio.
Carmem chegou no horário de sempre. Sentou-se. Esperou. Reviu mentalmente os passos dele, o som das folhas esmagadas sob os sapatos, o instante em que ele ajeitava a gola — e nada. Esperou até o sol mudar de lado. Depois, por hábito, voltou nos dias seguintes. Nenhuma notícia. Nenhuma carta. Nenhuma morte publicada nos jornais. Apenas o vazio no banco dois.
Ela não chorou. Guardou para si o que não foi, com a mesma delicadeza com que se dobra um lenço antigo. E continuou indo à praça, não por esperança — mas por respeito àquilo que quase existiu.
Porque havia algo mais forte do que o amor vivido:
o amor que não se ousou viver.
O beijo nunca dado.
E talvez, por isso, ele ainda morasse ali.
Na curva do vento.
No espaço entre os bancos.
Na respiração contida de quem, mesmo sem tocar, sentiu o beijo.

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