Nosso Eterno Talvez
Talvez a gente tivesse comprado aquela casa com janelas grandes e piso de madeira que você gostava. Talvez eu tivesse aprendido a gostar do seu café amargo, e você teria se acostumado com meu jeito de dormir com a luz acesa. Talvez a gente tivesse envelhecido junto, discutindo sobre o que assistir na TV e dividindo o silêncio confortável de quem não precisa provar mais nada.
Talvez você ainda estivesse
aqui para me lembrar onde deixei as chaves, para rir quando eu me esquecesse da
panela no fogo, ou para me abraçar nos dias em que o mundo pesa mais do que eu
aguento.
Mas você não está.
E é nisso que o nosso amor se
transformou: um punhado de “talvez” que vivem comigo.
Eles me acompanham no supermercado, quando passo pelos corredores e pego duas
unidades por impulso, antes de lembrar que agora sou só eu. Estão comigo nos
domingos, quando o cheiro do assado invade a cozinha, mas a mesa ficou grande
demais. Estão nas viagens que nunca fizemos, nos filmes que não vimos, nos
aniversários que agora são só datas.
Às vezes, me pego falando
sozinha — respondendo ao que você diria, imaginando sua reação a coisas
pequenas do dia. É assim que você continua existindo aqui: nas possibilidades.
Nos diálogos que nunca tivemos, nos planos interrompidos, nos sonhos que ficaram
esperando por nós dois.
E não, eu não fico parada. A
vida, de algum modo, continua. Eu caminho. Faço o que dá. Sorrio às vezes,
tropeço noutras. Mas carrego comigo esse “nós” que nunca terminou, só mudou de
forma. Um amor que não morre, só se acomoda nas entrelinhas.
Porque a gente teve tudo pra
ser. Só não teve tempo.
Então eu sigo. Com você em mim. Com o gosto do café que ainda é doce demais e o
som do seu riso que ainda ecoa na minha memória.
E com esse talvez que ficou como herança: um amor que não partiu por completo.
Um amor que ainda me
acompanha, mesmo que só eu continue aqui.
Silvia Marchiori Buss
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