Na Fresta da Lua

Na cidade de São Romualdo do Sul, onde as casas pareciam ter sido desenhadas por mãos cansadas e o tempo andava de charrete, havia um casarão no alto da colina. Era antigo, com grades enferrujadas, paredes que descascavam como a pele dos velhos e janelas que mal se abriam. Chamavam-no de Asilo Santo Hermínio. Mas ninguém ali era santo, tampouco remediado. Era o lugar onde se depositavam os indesejados: os que falavam sozinhos, os que choravam sem aviso, os que viam demais ou de menos.

Entre os internos, havia uma mulher que todos chamavam de Dona Lídia. Tinha os cabelos brancos como neblina e olhos de um azul opaco, como o de uma porcelana esquecida. Diziam que enlouquecera de amor, ou de perda, ou de nascença. A história nunca era contada do mesmo jeito.

Alguns murmuravam que fora uma jovem pianista promissora, filha do único maestro que São Romualdo teve. Outros juravam que ela matara o marido a colheradas de sopa após anos de violência. Havia ainda quem dissesse que a encontraram vagando nua pelas ruas, sussurrando canções em francês, numa noite de eclipse.

A verdade? Talvez ela mesma não soubesse mais.

Lídia vivia no quarto 12, o único com vista para o campo aberto e, mais importante, para a lua. Era ali que, toda noite, quando o silêncio pesava mais que os remédios, ela sentava-se na cadeira de vime, envolta num xale lilás desfiado, e olhava fixamente para uma fresta na veneziana. Era por ali que a lua entrava, sempre à mesma hora, recortando seu rosto em prata e revelando sua verdadeira realidade.

Naquela fresta da lua, Lídia encontrava sua casa de infância, o perfume de patchouli da mãe, a risada do pai soprando bolhas de sabão no quintal. Via também o rosto de Anselmo — talvez real, talvez inventado — o único homem que a fizera dançar sob a chuva sem se importar com os vizinhos. Na lua, Lídia era livre, inteira, desejada. Lá, seus filhos não haviam morrido antes de nascer. Lá, ninguém a chamava de “caso perdido”.

No Santo Hermínio, era apenas mais uma que comia mingau morno, tomava banho vigiada e recebia visitas imaginárias.

Mas havia amizades.

Marina, a que colecionava papéis de bala e achava que eram moedas de outro país. Silas, que dizia ter sido dublê de cinema e fazia acrobacias lentas nos corredores. E Dona Zuleika, que, mesmo cega, sabia quando a lua entrava pela fresta — dizia que a luz fazia cócegas em seu rosto. Com eles, Lídia trocava silêncios. Às vezes, histórias. Mas sempre respeitavam seus minutos sagrados com a lua. Sabiam que ali não se devia entrar.

Certa noite, uma enfermeira nova resolveu fechar as venezianas “porque estava frio”. Lídia gritou como uma criança que tem o brinquedo arrancado da mão. Chutou a cadeira, rasgou o xale, mordeu o próprio braço. Foi contida, sedada, amarrada. No prontuário, anotaram: “episódio de agitação noturna”. Mas ninguém anotou que, naquela noite, a lua não entrou.

Depois disso, ela silenciou. Durante dias, recusou comida, recusou fala, recusou tudo. Só os olhos continuavam abertos, como se buscassem algo que já não vinha.

Foi Silas quem teve a ideia. Subornou um dos técnicos com figurinhas antigas, trocou um fusível, fez o tempo parar por dois minutos e reabriu a veneziana.

A lua entrou.

E Lídia sorriu.

Naquela fresta, voltou a ser pianista. Mãe. Amante. Estrela.

Na fresta da lua, ela era verdadeira — e o resto, o que chamavam de realidade, não passava de um sonho ruim do qual ela já não precisava mais acordar.

No dia em que Lídia se foi, o céu estava limpo. Era madrugada, e a lua cheia lambia o chão de seu quarto como um lençol de despedida. Silas disse que ela partiu dançando. Zuleika sentiu um perfume leve, de patchouli. Marina guardou um papel de bala brilhante para ela.

E todos juraram que, por um segundo, a lua piscou.

 


Silvia Marchiori Buss

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