" Modo Cinza"
Marta acordou com o som da chuva no telhado. Mas não foi o barulho que a tirou do sono — foi o peso. Um cansaço surdo, espesso, como se tivesse passado a noite inteira lutando contra um vazio sem nome. Abriu os olhos devagar. Era segunda-feira. Mas poderia ser quarta, sexta ou domingo. Tanto fazia.
O despertador já havia
desistido de insistir havia mais de vinte minutos. O café da filha deveria
estar pronto, o uniforme passado, a mochila conferida. Mas Marta não se movia.
O corpo estava inteiro, mas ela, em pedaços.
Lá da cozinha, ouviu o som da
torneira. Clara, sua filha de doze anos, preparava o próprio lanche. Aprendera
cedo a identificar os dias em que a mãe ficava
no “modo cinza”. Era uma linguagem inventada entre as duas, um código secreto
para nomear o que doía e não se explicava.
Clara, de certa forma, tinha
maturidade demais para a idade. Sabia quando não insistir, quando o silêncio
precisava de companhia em vez de conselhos. E naquele dia, deixaria a mãe no
cinza.
Marta se levantou. Passou o
café sem pensar, esqueceu de adoçar. Nem notou. O celular vibrava com mensagens
do trabalho, lembretes de reuniões, cobranças de prazos. Ignorou tudo. Como
atravessar a cidade debaixo d’água, pensava. Como respirar dentro da própria
tristeza.
Sentou-se à mesa, olhos fixos
no nada. A sala parecia maior quando o silêncio vinha de dentro. Havia fotos
nas prateleiras — Clara ainda pequena; ela e Paulo na praia; o pai, com os
braços fortes, segurando um peixe enorme, sorrindo como quem ensinava a vencer
o mundo.
Três anos desde que o pai se foi. Mas não era
o luto recente que doía. Era a ausência incorporada. O pai fora sua âncora. O
primeiro a notar quando a tristeza ameaçava, o único que sabia escutá-la em
silêncio. Ele não perguntava “o que foi?”, apenas se sentava ao lado e deixava
que ela falasse, ou não. Tinha mãos grandes e uma paciência rara. E era justo
no dia do aniversário de sua morte que o tempo sempre fechava por dentro. Um
luto mais estrutural que emocional — como uma coluna da casa que cede devagar e
muda o jeito de se andar pelos cômodos.
E Paulo… bem, Paulo ainda
morava ali. Mas há quanto tempo não estavam? O amor não morreu num dia
específico. Foi sumindo como água escorrendo por frestas, até secar. Primeiro,
os beijos distraídos. Depois, o sumiço dos toques no ombro ao passar pela sala.
Mais adiante, os silêncios à mesa. Agora, restavam apenas diálogos funcionais e
a gentileza civilizada de quem compartilha a mesma casa como se fosse uma
hospedagem de longa duração.
Paulo era um bom homem. E
talvez isso fosse o mais difícil. Não havia um motivo dramático para a
separação emocional. Apenas o tempo, o cansaço, a ausência de curiosidade
mútua. Os olhos já não se procuravam no escuro. Dormiam lado a lado como quem
dorme em continentes diferentes.
Naquela manhã, Marta queria
desaparecer. Mas também queria ser achada. Queria silêncio, mas ansiava por
alguém que a ouvisse sem que ela precisasse explicar. Era uma contradição que a
exauria.
Lá fora, a chuva engrossava.
Relâmpagos riscavam o céu em silêncio. Por dentro, ela tentava conter a
inundação com gestos pequenos: um chá de camomila, o moletom mais velho, uma
vela de lavanda. Coisas que não curam. Mas às vezes, aquecem.
Pela janela, viu Dona Norma, a
vizinha do terceiro andar. Capa de chuva lilás, sacola plástica na cabeça, e a
mesma rotina: alimentar os gatos de rua. Mesmo com quase oitenta anos, saía
todos os dias. Às vezes deixava bilhetes na porta de Marta: “Não esquece de
respirar”, “O céu também já chorou demais”. Hoje, ainda não tinha
aparecido.
Clara entrou na sala com a
mochila nas costas, parou diante da mãe e disse, com voz serena:
— Mãe… hoje eu vou sozinha. A
escola é perto, e levei o guarda-chuva grande. Te ligo quando chegar. Tá?
Marta não respondeu. Apenas concordou
com olhos marejados. Clara se abaixou, encostou a testa na da mãe e sussurrou:
— Você sempre volta “do cinza”.
Eu sei esperar.
A porta se fechou devagar.
Marta chorou. Não alto. Apenas o bastante para aliviar um pouco da alma. Não
era fraqueza, nem heroísmo. Era só o corpo pedindo trégua.
Desligou o celular. Cobriu-se
com a manta do sofá, abraçou a almofada mais velha da casa — aquela que o pai
usava para assistir futebol — e fechou os olhos.
Não adormeceu. Mas também não
fugiu.
Ficou ali, inteira em sua
ausência de forças, deixando a chuva acontecer. Era um dia ruim. Um dia de
temporal. Um dia cinza.
E às vezes, sobreviver é o
bastante.
No fundo, mesmo sem forças
para acreditar, ela sabia: a chuva sempre cessa. E quando cessar — como sempre
cessa — alguma coisa pequena, quase invisível, pode brotar. Um gesto. Um
bilhete. Um raio de sol entre frestas.
Não precisava ser muito.
Só precisava ser possível.
Silvia Marchiori Buss
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