Lua de Lobisomem

Parte um: A Fresta da Lua

Naquela vila escondida entre morros úmidos e trilhas de barro, havia um pacto antigo que ninguém ousava quebrar. Em noites ide lua cheia, as luzes eram apagadas antes do anoitecer. Ninguém saía, ninguém chamava, ninguém respondia. O silêncio era a única defesa.

Benedita, a costureira da vila, nunca acreditara nessas coisas. Filha de professora, criada entre livros e ceticismos, ria quando lhe contavam das patas fundas deixadas na terra ou das galinhas desaparecidas. “É cachorro do mato, e medo de gente que não lê”, dizia, entre um ponto e outro.

Mas naquele mês, a lua cheia caiu justamente no dia em que Benedita recebeu a visita de Elisa — a neta de sua irmã, que viera do litoral passar uns dias. Uma menina de doze anos, curiosa, sardenta, com olhos que pareciam guardar segredos que nem ela sabia.

— Tia Bene... por que todo mundo se tranca hoje? — perguntou Elisa, com o rosto colado na janela, vendo os vizinhos fecharem trincos e cobrir lamparinas.

— É superstição, só isso. Lenda de gente que tem medo do escuro.

— E se for verdade?

Benedita não respondeu. Não por medo — mas porque, algo nela hesitou. Havia um cheiro estranho no ar. Não exatamente podre, nem animal. Um cheiro de coisa antiga. De aviso.

Quando a noite caiu, a vila se apagou como uma cidade fantasma. Mas Elisa queria ver a lua, e Benedita, meio distraída, deixou que ela abrisse a fresta da janela. Foi o suficiente.

Um uivo atravessou o vale. Não foi alto. Foi contido, grave, como se saísse de dentro da terra. Benedita sentiu a espinha gelar. O som não vinha da mata. Vinha de dentro da vila.

Elisa, de olhos arregalados, olhou para a tia. E foi então que Benedita viu: a menina tremia, mas não de medo — era como se algo dentro dela estivesse despertando. Um calor subindo pela pele, as veias pulsando no pescoço, os dentes cerrados demais.

— Elisa... você está bem?

— Eu... não sei. Tá doendo tudo. E eu tô com sede... mas não de água.

O mundo, então, se dobrou em dois. Benedita entendeu, como um estalo na alma, que aquela menina era o elo que ninguém esperava. Não era visitante — era herdeira. De uma linhagem antiga, talvez vinda da irmã que, há anos, sumira da vila sem explicação numa noite de lua cheia.

Elisa caiu de joelhos. A pele queimava. Os olhos se tornaram de vidro âmbar. As unhas, afiadas. A respiração, um ofegar entre humano e fera. Benedita, paralisada, sentiu-se parte de uma história que não escolheu.

A transformação não foi rápida, nem gloriosa. Foi dolorida. Humana. Um parto às avessas.

E então, quando o silêncio voltou e a lua subiu inteira, Elisa já não era mais Elisa. Era outra coisa. Um animal que a reconhecia, mas não obedecia. Um bicho com lembrança de gente.

Benedita não correu. Não gritou. Apenas se sentou no chão de madeira e disse baixinho:

— Então... é verdade.

A criatura a observou por longos segundos. Não atacou. Não fugiu. Apenas saiu pela porta, abrindo caminho com o focinho entre as trepadeiras.

Na manhã seguinte, havia pegadas fundas na terra e o cheiro de coisa antiga espalhado por toda a casa.

Benedita não contou a ninguém. Nem mesmo quando vieram perguntar se estava tudo bem. “Está”, disse. E foi só.

Mas, desde aquela noite, em toda terça-feira de lua cheia, Benedita deixa uma tigela de água do lado de fora. E um cachecol amarelo — o mesmo que costurou para Elisa no dia em que chegou.

Às vezes, ele desaparece. Às vezes, volta com folhas e sangue seco nas franjas.

E Benedita sorri. Porque agora ela acredita.
Mas não tem medo.


Parte II: O Sangue Que Volta

Depois daquela noite, Benedita começou a revisitar lugares que não pisava há anos. A trilha para o poço velho. O sótão empoeirado da casa da infância. As cartas da irmã — Amélia — escondidas embaixo do forro da cômoda.

Foram essas cartas que abriram as feridas. Eram poucas, mas vivas. Escritas com pressa, cheias de rasuras, como se a própria tinta tremesse de medo. Em uma delas, datada de julho de 1996, Amélia dizia:

“Bene, não posso voltar. Não agora. O que carrego não é só meu. É coisa antiga, daquelas que nascem antes da gente nascer. Estou tentando proteger minha filha. Quando ela crescer, talvez precise de você. Talvez precise lembrar quem é. Mas, acima de tudo, que você a ame mesmo quando não a entender.”

Benedita leu e releu aquelas palavras até os olhos arderem. Sentia raiva, dor, mas também culpa. Ela lembrava do dia em que Amélia partira — magra, quase esquelética, de olhos febris, dizendo que precisava sumir. Todos acharam que era mais um dos delírios dela. Ninguém acreditou. Nem Benedita.

Agora entendia.

Na vila, histórias corriam em sussurros. Falava-se de uma maldição antiga. De uma mulher que, anos atrás, dera à luz num dia de eclipse. Que sumira na mata e nunca mais fora vista. De um bicho que rondava as casas com passos leves, olhos dourados e uma tristeza humana.

Benedita, então, começou a costurar outra coisa: uma nova rotina para Elisa.

Durante o dia, ensinava à menina o que podia: bordado, leitura, o nome das plantas e suas propriedades. À noite, trancava portas, cobria espelhos, deixava água e sal grosso nos cantos.

Mas nas terças de lua cheia, deixava a casa aberta. E Elisa, agora mais forte e menos assustada, saía sem dizer palavra, com o mesmo olhar de Amélia antes de partir.

Em uma dessas noites, Benedita a seguiu.

A trilha era estreita, coberta de folhas secas. Elisa caminhava em silêncio, os pés descalços, os olhos fixos em algo invisível. Até que chegou à clareira. E ali, à luz da lua, Benedita viu Amélia.

Envelhecida, mas inteira. Com cabelos longos, vestida com folhas e silêncio. Entre mãe e filha, não houve palavra — apenas o reconhecimento de sangue. Amélia não chorou. Elisa também não. O corpo da menina começou a mudar, lentamente. Era como se ali, diante da mãe, a dor da transformação se tornasse menos cruel.

Benedita quis se aproximar, mas algo a impediu. Um limite que não era físico — era antigo. Era lei. Ficou ali, à sombra das árvores, enquanto mãe e filha partilhavam o mesmo instinto, a mesma noite.

Quando voltou, Benedita soube: Elisa agora sabia. Não só quem era. Mas quem a esperava ser.

Nas semanas seguintes, a menina dormia melhor. Os olhos estavam mais calmos, o corpo mais firme. E Benedita, mesmo sem entender tudo, sabia o mais importante: Elisa não estava sozinha.

E mais: ela também não estava.

Na próxima lua cheia, Benedita acendeu uma vela diante do espelho e olhou nos próprios olhos. Percebeu neles um brilho âmbar — quase imperceptível, mas real. E compreendeu que talvez a linhagem não começasse em Amélia.

Talvez ela mesma tivesse escolhido esquecer.


Parte III – As Coisas que se Aprende no Escuro

O tempo passou. E passou como costuma passar nas vilas antigas: lento nos ponteiros, veloz nas entrelinhas.

Elisa cresceu. Os traços arredondaram-se, a coragem também. Não perguntava mais se era normal. Sabia que não era. Mas aprendeu que “ser normal” é apenas o nome que os outros dão ao que conseguem explicar. E o que ela era — o que elas eram — não cabia em explicações fáceis.

Com o tempo, deixou de fugir da transformação. Deixou de temê-la. A dor virou rito, e o rito, força. Era como se o corpo dissesse: “Você também é isso. E está tudo bem.”

Benedita agora cuidava do que chamava de tempo entre luas. Dias comuns — em que cozinhavam juntas, riam, costuravam, limpavam o quintal, ouviam música antiga, e às vezes, apenas se sentavam no alpendre sem dizer nada. À noite, contavam histórias inventadas ou lembranças que pareciam sonhos. Elisa ouvia tudo com olhos de bicho manso.

Mas nem todos estavam prontos.

A vila começou a notar. Olhares demorados no mercado. Sussurros na padaria. Um cão que uivava apenas quando Elisa passava. Benedita, com sua sabedoria contida, resolveu agir antes que o medo alheio se tornasse faca.

Procurou os anciãos. Falou sem rodeios.

— Ela não é um monstro. E se fosse, ainda assim seria minha. E nossa.

Não houve consenso. Mas houve silêncio — e isso já era suficiente.

E foi então que Amélia voltou. Não para a vila. Para a casa. Para a filha. Para a irmã.

Uma tarde, simplesmente apareceu na porta, com uma cesta de flores e um sorriso gasto.

— Posso entrar?

Não precisou resposta. Entrou. Como se nunca tivesse saído.

E naquela casa, construída entre rezas e sustos, as três passaram a viver. Cada uma com suas noites. Cada uma com sua natureza. Juntas, mesmo diferentes.

Na vila, pararam de perguntar. O povo aprendeu o que sempre soube: quem vive em paz não dá trabalho. E quem tem lobos por perto, aprende a respeitar o mato.


Epílogo – As Mulheres da Casa Amarela

Hoje, a casa amarela ainda está lá. As janelas de madeira, o quintal de ervas, o varal cheio de lençóis perfumados ao sol.

Elisa é professora na escola da vila. Ensina ciências e poesia. Fala de estrelas e ciclos. Os alunos a adoram, mesmo quando seus olhos ganham um brilho estranho em noites muito claras.

Benedita anda mais lenta, mas ainda costura. Faz mantas para os vizinhos, borda nomes em toalhas e, nas noites de lua cheia, fecha a casa com mais calma. Não por medo — por costume.

Amélia cultiva hortênsias. Gosta de andar de pés descalços e conversar com o vento. Nunca mais foi vista em forma de fera — mas à noite, às vezes, sua sombra alonga-se demais.

Dizem que à beira da mata, de vez em quando, aparecem pegadas. E que há um uivo bonito que ecoa lá no alto dos morros, mas que não assusta ninguém.

Na vila, aprenderam a conviver com os lobos.

E a lua, ah... a lua segue sendo espelho. Daquilo que a gente esconde. Ou aceita.

E as mulheres da casa amarela?
Aprenderam a conviver com tudo que são.
Porque nem todo lobo é ameaça.
E nem todo segredo precisa ser escondido para sempre. 




Silvia Marchiori Buss

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