História Que é Melhor Não Contar
PARTE UM
Todo mundo tem uma história que é melhor não contar. A de dona Zuleica envolvia um bolo de aniversário, um vibrador e o padre da paróquia.
Claro que ela jura que não foi bem assim.
O que se sabe com certeza é que, no aniversário de 60 anos do seu terceiro marido — o Josué, um homem com a mesma empolgação de uma telha molhada —, Zuleica quis inovar. Resolveu fazer uma festinha surpresa. Comprou bexigas, uma faixa com "Feliz ciclo de vida" (era o que tinha na loja), uma torta alemã e, para dar um toque picante, uma daquelas velas que parecem outra coisa. Sabe? Aquela coisa. Daquelas que vibram. E tocam musiquinha.
A ideia, segundo ela explicou depois à cunhada fofoqueira, era colocar a vela em cima da torta só para "ver a cara do Josué". Mas o destino — e talvez o diabo — decidiu apimentar a ocasião. A vela foi posta, acesa (e ligada), e, no exato momento em que todos gritaram “Surpresa!”, a porta da sala abriu... e quem entra?
Padre Alfredo.
Vinha entregar pessoalmente uma Bíblia com dedicatória ao aniversariante, um presente da comunidade cristã local que, até aquele instante, ainda não sabia do passado de Zuleica na dança do ventre.
O vibrador, confuso com tanto estímulo, começou a tocar "Happy Birthday" enquanto tremia violentamente sobre a torta, derrubando morangos e respingando chantilly nos óculos do padre. Josué, que já não escutava bem, achou que o objeto era um microfone e tentou fazer um discurso. O padre, horrorizado, benzeu-se três vezes antes de sair correndo, deixando a Bíblia cair no chão — ironicamente, aberta na página de Sodoma e Gomorra.
Foi um escândalo, é claro.
Naquela noite, o grupo de oração excluiu Josué do Zap. Zuleica, por outro lado, ganhou duzentos novos seguidores no Instagram quando alguém postou o vídeo com a legenda: "Jesus que lute."
Desde então, Zuleica sempre que pode diz:
— Ah, essa história?
Melhor não contar.
PARTE DOIS
Todo mundo tem uma história que é melhor não contar. A de dona Zuleica envolvia um bolo de aniversário, uma dentadura solta e o padre da paróquia.
Zuleica era uma senhora de modos refinados — ou, pelo menos, achava que era. Usava broches herdados de tias mortas, falava “gratin” em vez de "gratinado", e tinha um certo orgulho de seu passado como locutora da rádio comunitária, onde lia horóscopos com a entonação de quem narrava o fim do mundo.
No aniversário de 70 anos do seu marido Josué — um homem tão animado quanto uma segunda-feira sem café —, ela decidiu preparar uma surpresa. Decorou a casa com bexigas, mandou fazer um bolo com a foto do casal impressa no glacê e preparou um discurso emocionado que ensaiou por dias diante do espelho.
Tudo corria bem até a hora do parabéns. Reunidos no quintal, sob um toldo alugado que ameaçava desabar a cada rajada de vento, Zuleica se aproximou do bolo para dizer algumas palavras. Foi aí que aconteceu.
No meio da frase “Você foi o grande amor da minha vida…”, a dentadura — recém-colada com uma cola de procedência duvidosa — soltou-se com a vibração da emoção e caiu em cheio sobre o bolo. De frente. Bem em cima do glacê com o rosto de Josué.
Foi um silêncio sepulcral, seguido por uma gargalhada infantil de um neto inconveniente e, para piorar, pela chegada do padre Alfredo, convidado de última hora para dar a bênção ao casal.
Ao ver a cena — a dentadura fincada no bolo, os olhos do Josué cobertos de chantilly e a aniversariante paralisada com a boca meio murcha — o padre apenas disse:
— Acho que volto mais tarde.
Zuleica, sem perder a pose, pegou um guardanapo, resgatou os dentes e declarou:
— Desculpem. É muita emoção. E muito açúcar.
Desde então, toda vez que alguém tenta tocar no assunto, ela ergue a sobrancelha e diz com elegância duvidosa:
— Ah, essa história? Melhor não contar.
Mas é claro que todo mundo da cidade conta. Na feira, no salão, na fila da farmácia... e cada um jura que estava lá.
PARTE TRÊS
Todo mundo tem uma história que é melhor não contar. A de dona Zuleica, por exemplo, nunca apareceu em rede social — mas circula com mais eficiência que fake news em grupo de família.
Foi no casamento da sobrinha mais nova, a única da família que ainda fingia gostar da Zuleica. A festa era num sítio caro, com arranjos de flores importadas, garçom com luva branca e aquela decoração que parece mais uma vitrine do Pinterest do que um ambiente onde alguém de verdade vive. Zuleica apareceu com um vestido vinho, um salto que não combinava com grama molhada e uma opinião sobre tudo — principalmente sobre o que não lhe dizia respeito.
Passou a cerimônia toda alfinetando a decoração “exagerada”, a mãe da noiva (“de novo com esse cabelo de festa junina chique?”), o buffet vegano (“só pode ser punição divina”) e a aliança do noivo (“tão fina, parece que já tá querendo sair do casamento”).
Mas o ponto alto — ou baixo — foi o discurso.
Zuleica não fora convidada para falar. Mas se auto - convidou, como sempre fez na vida.
Pegou o microfone, ignorou o cerimonial e começou a “homenagem” aos noivos. Disse que o amor é como um empréstimo: "parece vantajoso no começo, mas no fim, a gente paga caro com juros emocionais". Disse que casamento não era conto de fadas, mas um acordo silencioso entre dois seres dispostos a tolerar a chatice um do outro. E, no final, lançou um sorriso seco e a frase que virou lenda:
— Desejo que vocês sejam felizes… mas não demais, senão se acostumam mal.
O silêncio foi absoluto. A noiva chorou — não de emoção, mas de raiva. O noivo engoliu em seco, o pai da noiva pediu mais uísque e a mãe, com a boca dura de botox, apenas sussurrou:
— Era só isso que faltava.
Zuleica terminou o vinho de alguém, pegou um bem-casado da mesa e foi embora dizendo que "já estava tudo bom demais pra durar".
Desde então, sempre que alguém menciona casamento na família, alguém solta:
— Só não chama a Zuleica, por favor.
E quando perguntam por que, a resposta é sempre a mesma:
— Melhor não contar.
PARTE QUATRO
A outra história que é melhor não contar — e que, obviamente, todo mundo já contou — aconteceu no velório do tio Haroldo. Viúvo há três décadas, pai ausente, patrão terrível e, segundo ele mesmo, “um homem de princípios”. Ninguém sabia exatamente quais, mas ele falava tanto disso que ninguém teve coragem de questionar.
Foi um velório modesto, como era de se esperar de alguém que não deixou saudade, apenas testamento.
Dona Zuleica chegou tarde, com os óculos escuros do tamanho de uma parabólica e um vestido preto de quem estava mais para filme noir do que para missa de sétimo dia. Desfilou entre os bancos como quem entra em um desfile fúnebre particular e, claro, causou antes mesmo de sentar.
— Tô passada — sussurrou alto demais. — Nem parece ele. Arrumaram demais. Ele vivo era muito mais feio.
A viúva do filho do Haroldo quase engasgou com o terço.
Zuleica se sentou na primeira fileira, sem convite, como se fosse a neta favorita — sendo que Haroldo nunca teve netos, nem favoritos. Abriu uma bolsa barulhenta, tirou uma garrafinha térmica e começou a tomar chá de camomila como quem está em um spa.
Quando o padre começou as palavras finais, ela interrompeu:
— Desculpa, mas não seria mais honesto dizer que ele era um porre? Dizer que "vai deixar saudade" é forçar demais, não?
Ninguém respondeu. Só o silêncio constrangido e um pigarro nervoso do padre.
Mas o pior ainda estava por vir.
Durante a leitura da tal “última vontade”, Zuleica, com aquele tom casual de quem comenta previsão do tempo, soltou:
— Ah, ele deixou o apartamento para o caseiro? Coerente. Pelo menos alguém ali aguentava ouvir a voz dele sem querer se jogar da sacada.
Foi expulsa discretamente da sala, acompanhada por uma sobrinha que lhe disse, entre dentes:
— Tia, pelo amor de Deus. É um velório!
E Zuleica respondeu, limpando a boca com um lenço perfumado:
— Justamente. Se não for para dizer a verdade no fim, a gente vai esperar o quê? O pós-vida?
Desde então, toda vez que morre alguém na família, alguém sussurra com medo:
— Avisa a Zuleica… mas não dá microfone pra ela.
E quando alguém pergunta o motivo, todos respondem:
— Melhor não contar.
Silvia Marchiori Buss
Todo mundo tem uma história que é melhor não contar. A de dona Zuleica envolvia um bolo de aniversário, um vibrador e o padre da paróquia.
Claro que ela jura que não foi bem assim.
O que se sabe com certeza é que, no aniversário de 60 anos do seu terceiro marido — o Josué, um homem com a mesma empolgação de uma telha molhada —, Zuleica quis inovar. Resolveu fazer uma festinha surpresa. Comprou bexigas, uma faixa com "Feliz ciclo de vida" (era o que tinha na loja), uma torta alemã e, para dar um toque picante, uma daquelas velas que parecem outra coisa. Sabe? Aquela coisa. Daquelas que vibram. E tocam musiquinha.
A ideia, segundo ela explicou depois à cunhada fofoqueira, era colocar a vela em cima da torta só para "ver a cara do Josué". Mas o destino — e talvez o diabo — decidiu apimentar a ocasião. A vela foi posta, acesa (e ligada), e, no exato momento em que todos gritaram “Surpresa!”, a porta da sala abriu... e quem entra?
Padre Alfredo.
Vinha entregar pessoalmente uma Bíblia com dedicatória ao aniversariante, um presente da comunidade cristã local que, até aquele instante, ainda não sabia do passado de Zuleica na dança do ventre.
O vibrador, confuso com tanto estímulo, começou a tocar "Happy Birthday" enquanto tremia violentamente sobre a torta, derrubando morangos e respingando chantilly nos óculos do padre. Josué, que já não escutava bem, achou que o objeto era um microfone e tentou fazer um discurso. O padre, horrorizado, benzeu-se três vezes antes de sair correndo, deixando a Bíblia cair no chão — ironicamente, aberta na página de Sodoma e Gomorra.
Foi um escândalo, é claro.
Naquela noite, o grupo de oração excluiu Josué do Zap. Zuleica, por outro lado, ganhou duzentos novos seguidores no Instagram quando alguém postou o vídeo com a legenda: "Jesus que lute."
Desde então, Zuleica sempre que pode diz:
— Ah, essa história?
Melhor não contar.
PARTE DOIS
Todo mundo tem uma história que é melhor não contar. A de dona Zuleica envolvia um bolo de aniversário, uma dentadura solta e o padre da paróquia.
Zuleica era uma senhora de modos refinados — ou, pelo menos, achava que era. Usava broches herdados de tias mortas, falava “gratin” em vez de "gratinado", e tinha um certo orgulho de seu passado como locutora da rádio comunitária, onde lia horóscopos com a entonação de quem narrava o fim do mundo.
No aniversário de 70 anos do seu marido Josué — um homem tão animado quanto uma segunda-feira sem café —, ela decidiu preparar uma surpresa. Decorou a casa com bexigas, mandou fazer um bolo com a foto do casal impressa no glacê e preparou um discurso emocionado que ensaiou por dias diante do espelho.
Tudo corria bem até a hora do parabéns. Reunidos no quintal, sob um toldo alugado que ameaçava desabar a cada rajada de vento, Zuleica se aproximou do bolo para dizer algumas palavras. Foi aí que aconteceu.
No meio da frase “Você foi o grande amor da minha vida…”, a dentadura — recém-colada com uma cola de procedência duvidosa — soltou-se com a vibração da emoção e caiu em cheio sobre o bolo. De frente. Bem em cima do glacê com o rosto de Josué.
Foi um silêncio sepulcral, seguido por uma gargalhada infantil de um neto inconveniente e, para piorar, pela chegada do padre Alfredo, convidado de última hora para dar a bênção ao casal.
Ao ver a cena — a dentadura fincada no bolo, os olhos do Josué cobertos de chantilly e a aniversariante paralisada com a boca meio murcha — o padre apenas disse:
— Acho que volto mais tarde.
Zuleica, sem perder a pose, pegou um guardanapo, resgatou os dentes e declarou:
— Desculpem. É muita emoção. E muito açúcar.
Desde então, toda vez que alguém tenta tocar no assunto, ela ergue a sobrancelha e diz com elegância duvidosa:
— Ah, essa história? Melhor não contar.
Mas é claro que todo mundo da cidade conta. Na feira, no salão, na fila da farmácia... e cada um jura que estava lá.
PARTE TRÊS
Todo mundo tem uma história que é melhor não contar. A de dona Zuleica, por exemplo, nunca apareceu em rede social — mas circula com mais eficiência que fake news em grupo de família.
Foi no casamento da sobrinha mais nova, a única da família que ainda fingia gostar da Zuleica. A festa era num sítio caro, com arranjos de flores importadas, garçom com luva branca e aquela decoração que parece mais uma vitrine do Pinterest do que um ambiente onde alguém de verdade vive. Zuleica apareceu com um vestido vinho, um salto que não combinava com grama molhada e uma opinião sobre tudo — principalmente sobre o que não lhe dizia respeito.
Passou a cerimônia toda alfinetando a decoração “exagerada”, a mãe da noiva (“de novo com esse cabelo de festa junina chique?”), o buffet vegano (“só pode ser punição divina”) e a aliança do noivo (“tão fina, parece que já tá querendo sair do casamento”).
Mas o ponto alto — ou baixo — foi o discurso.
Zuleica não fora convidada para falar. Mas se auto - convidou, como sempre fez na vida.
Pegou o microfone, ignorou o cerimonial e começou a “homenagem” aos noivos. Disse que o amor é como um empréstimo: "parece vantajoso no começo, mas no fim, a gente paga caro com juros emocionais". Disse que casamento não era conto de fadas, mas um acordo silencioso entre dois seres dispostos a tolerar a chatice um do outro. E, no final, lançou um sorriso seco e a frase que virou lenda:
— Desejo que vocês sejam felizes… mas não demais, senão se acostumam mal.
O silêncio foi absoluto. A noiva chorou — não de emoção, mas de raiva. O noivo engoliu em seco, o pai da noiva pediu mais uísque e a mãe, com a boca dura de botox, apenas sussurrou:
— Era só isso que faltava.
Zuleica terminou o vinho de alguém, pegou um bem-casado da mesa e foi embora dizendo que "já estava tudo bom demais pra durar".
Desde então, sempre que alguém menciona casamento na família, alguém solta:
— Só não chama a Zuleica, por favor.
E quando perguntam por que, a resposta é sempre a mesma:
— Melhor não contar.
PARTE QUATRO
A outra história que é melhor não contar — e que, obviamente, todo mundo já contou — aconteceu no velório do tio Haroldo. Viúvo há três décadas, pai ausente, patrão terrível e, segundo ele mesmo, “um homem de princípios”. Ninguém sabia exatamente quais, mas ele falava tanto disso que ninguém teve coragem de questionar.
Foi um velório modesto, como era de se esperar de alguém que não deixou saudade, apenas testamento.
Dona Zuleica chegou tarde, com os óculos escuros do tamanho de uma parabólica e um vestido preto de quem estava mais para filme noir do que para missa de sétimo dia. Desfilou entre os bancos como quem entra em um desfile fúnebre particular e, claro, causou antes mesmo de sentar.
— Tô passada — sussurrou alto demais. — Nem parece ele. Arrumaram demais. Ele vivo era muito mais feio.
A viúva do filho do Haroldo quase engasgou com o terço.
Zuleica se sentou na primeira fileira, sem convite, como se fosse a neta favorita — sendo que Haroldo nunca teve netos, nem favoritos. Abriu uma bolsa barulhenta, tirou uma garrafinha térmica e começou a tomar chá de camomila como quem está em um spa.
Quando o padre começou as palavras finais, ela interrompeu:
— Desculpa, mas não seria mais honesto dizer que ele era um porre? Dizer que "vai deixar saudade" é forçar demais, não?
Ninguém respondeu. Só o silêncio constrangido e um pigarro nervoso do padre.
Mas o pior ainda estava por vir.
Durante a leitura da tal “última vontade”, Zuleica, com aquele tom casual de quem comenta previsão do tempo, soltou:
— Ah, ele deixou o apartamento para o caseiro? Coerente. Pelo menos alguém ali aguentava ouvir a voz dele sem querer se jogar da sacada.
Foi expulsa discretamente da sala, acompanhada por uma sobrinha que lhe disse, entre dentes:
— Tia, pelo amor de Deus. É um velório!
E Zuleica respondeu, limpando a boca com um lenço perfumado:
— Justamente. Se não for para dizer a verdade no fim, a gente vai esperar o quê? O pós-vida?
Desde então, toda vez que morre alguém na família, alguém sussurra com medo:
— Avisa a Zuleica… mas não dá microfone pra ela.
E quando alguém pergunta o motivo, todos respondem:
— Melhor não contar.
Silvia Marchiori Buss
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