É Só Deixar o Tempo Passar

Ela não sabia mais que horas eram. Não porque o relógio tivesse parado, mas porque o tempo, para ela, havia perdido o nome.

Durante anos, a vida correu apressada: filhos, contas, prazos, almoço por fazer, aulas para preparar, sono pela metade. Era tanta tarefa empilhada sobre os ombros que ela mal percebia o dia findar. E, quando percebia, era com a frustração de quem não viveu, apenas deu conta.

Agora, o silêncio da casa ecoava. O marido falava pouco – e, quando falava, era sobre qualquer coisa que não incluía ela. Os filhos? Adultos e ocupados demais para telefonar sem motivo, ocupados demais para lembrar que foram o centro de um mundo. O trabalho, antes altar da competência, já não a chamava.

Ficou ela – e um tempo que sobrava demais.

Levantava-se sem hora. Tomava café como quem executa um gesto sem fome. Lia trechos de livros, olhava os cômodos, sentava-se. Às vezes, fechava os olhos apenas para ver se o dia passava mais rápido.

Ninguém dizia mais: “Estamos atrasados?”
Ninguém dizia nada.

E então ela se perguntava: o que se faz com tanto tempo que não tem nome? Que não tem exigência? Nem testemunha?

Passava os dedos pelas xícaras da cristaleira como quem acaricia memórias que não voltam. Acendia uma vela – não por fé, mas por companhia. Às vezes, escrevia palavras soltas num caderno antigo, como se tentasse costurar o presente com um fio que não arrebentasse tão fácil com o passado.

E o tempo seguia.
Não corria.
Escorria.

Era isso.
Ela não vivia mais os dias – apenas deixava que eles passassem por ela.

Sem pressa.
Sem destino.
Sem alarde.


Silvia Marchiori Buss

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