Duas Coisas São Infinitas...
“Duas coisas são infinitas” — disse Einstein com mais lucidez do que otimismo: “o universo e a estupidez humana.” E talvez, se revisitasse hoje essa afirmação, ele precisasse acrescentar: a crueldade humana, que se alastra como buracos negros — silenciosa, faminta e, por vezes, celebrada.
Há quem destrua em nome de
ideologias. Outros o fazem por tédio, por ganância, ou só porque podem. E há
aqueles que ferem com a frieza de um bisturi, mas sem qualquer finalidade de
cura. São os que parecem normais: assinam contratos, pagam boletos, sorriem
para as câmeras, frequentam igrejas ou cafés — e, ainda assim, vão esvaziando o
outro aos poucos, como quem descasca uma fruta. Sem pressa. Sem culpa.
No mundo de hoje, diante da
dor alheia, muitos já piscam devagar — não por compaixão, mas por cansaço. A
empatia virou luxo. O cuidado, exceção. E o planeta, esse corpo vivo que nos
abriga com a paciência de uma mãe exausta, sangra sob o peso da nossa arrogância.
As florestas tombam para que moedas mudem de mãos. Os oceanos se afogam em
plástico. As geleiras derretem em silêncio. Chamamos isso de progresso — como
se o futuro estivesse à venda no mercado de ações.
Vivemos como se fôssemos
eternos. Como se nossas vontades justificassem tudo. Olhamos o outro — o pobre,
o velho, o doente, o estrangeiro, o diferente — e muitas vezes enxergamos
apenas o espelho de um fracasso que tememos. Julgamos antes de escutar. Desprezamos
antes de compreender. E assim seguimos: criando vínculos frágeis, relações
descartáveis, amores apressados, amizades de superfície. Em vez de acolher, nos
armamos. Em vez de dialogar, atacamos. A humanidade, aos poucos, desaprende o
que a tornava humana.
E, ainda assim, o universo —
esse infinito de cometas e caos — parece menos cruel do que nós. Não tem
pressa, nem sede de domínio. Não ergue muros, não traça fronteiras, não escolhe
quais vidas valem mais. O universo, ao contrário de nós, é indiferente — e
talvez seja nisso que resida sua sabedoria. Porque, aqui embaixo, a maldade não
nasce da indiferença: ela é decisão. É escolha, prática e, tantas vezes,
aplauso.
A estupidez humana não mora na
ignorância, mas na vaidade de insistir nos mesmos erros, mesmo sabendo que
ferem. Está na soberba de achar que tudo nos pertence — até a dor do outro.
Está na incapacidade de se colocar no lugar alheio, de reconhecer limites, de
renunciar ao próprio ego em nome do coletivo.
E então seguimos: consumindo
sem medida, odiando com facilidade, descartando afetos como quem troca de
roupa. Fingindo que está tudo bem. Como se o universo fosse tolerar para sempre
nosso desprezo por tudo o que é vivo — e por todos que ousam viver diferente de
nós.
Talvez um dia ele canse.
Ou talvez… ele já tenha cansado.
Silvia Marchiori Buss
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