Dias de Temporal
Tem dias em que a vida simplesmente pesa. Não acontece nada de muito extraordinário, mas o corpo acorda arrastado, a cabeça embaralhada, e o mundo parece mais difícil de atravessar. São dias de temporal — internos, silenciosos, mas avassaladores.
Não tem trovão, não tem alerta
da meteorologia. Só o silêncio do quarto, a louça acumulada na pia, o celular
que toca e a vontade de não atender. A gente levanta porque precisa, trabalha
porque é obrigado, sorri por educação. Mas tudo soa falso, mecânico, exausto.
Às vezes, é uma conta vencida.
Às vezes, é a saudade de alguém que já não está. Às vezes, é só o vazio. E
ninguém vê. Porque a vida continua girando, o supermercado abre às oito, o
chefe cobra resultado, a fila anda.
Mas dentro, a gente está
parado. Ou afundando.
E aí vem a culpa: por estar
mal sem motivo aparente, por não render, por não ser produtivo. A cobrança por
estar “tudo bem”, quando nada está. A sensação de fracasso só por não estar
conseguindo dar conta do básico.
Não tem resposta pronta. Não
tem fórmula. O que dá é tentar atravessar. Um café, um banho demorado, um
silêncio respeitado. Às vezes, só sobreviver ao dia já é o suficiente.
Porque o temporal não passa
quando a gente quer — ele passa quando pode.
E não precisa sair melhor,
mais forte, mais iluminado depois disso. Às vezes, só sair já é muito.
Silvia Marchiori Buss
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