Atravessando Um Oceano

Disseram a ela que era loucura. Que não havia mais nada do outro lado. Que ele se fora – de vez, de verdade. Mas Lúcia não acreditava no definitivo. Nunca acreditou.

Fez as malas como quem parte para um reencontro, não para um luto. Dentro, não havia roupas – apenas uma camisa dele, um livro com anotações à margem e uma fotografia amarelada onde ele sorria, sem saber que seria eternamente jovem.

Não contou a ninguém para onde ia. Apenas partiu.

O lugar não importava tanto quanto o gesto. A travessia era simbólica, mas, a cada passo, ela sentia o peso real de quem atravessa um oceano. Um mar de ausência, de lembranças, de perguntas não respondidas.

Lúcia chegou a uma vila à beira-mar, daquelas que parecem existir fora do tempo. Alugou um quarto simples, com janelas voltadas para o horizonte. Passava horas sentada, olhos no azul sem fim, como quem espera que a água traga de volta o impossível.

Às vezes, conversava com ele, em voz baixa:

– Cheguei, amor. Vim atravessando o tempo, a dor, o mundo. Vim te ver.

À noite, sonhava com passos na areia. Com mãos que se entrelaçam. Com vozes que não envelheciam. E, ao acordar, havia sempre um rastro de espuma diante da porta, como se o mar – cúmplice silencioso – quisesse brincar com sua presença.

Os dias passaram como ondas. Ninguém sabia ao certo por que aquela mulher estava ali, tão sozinha, tão firme. Ela escrevia cartas que nunca postava. Cozinhava para dois. Guardava silêncio como quem guarda promessas.

Até que, numa manhã, uma senhora da vila perguntou:
– Você espera alguém, minha filha?

Lúcia sorriu, sem ironia.
– Espero.

A mulher hesitou:
– Mas... ele não partiu?

Lúcia olhou o mar.
– Partiu. Mas eu ainda estou atravessando. E, enquanto atravesso, ele me espera do outro lado – mesmo que eu nunca chegue.

A mulher não entendeu. Mas respeitou.

E Lúcia ficou ali.
Não para encontrar. Mas para continuar amando no espaço entre uma margem e outra.

Sabia que alguns amores não morrem – apenas viram oceano.

 


Silvia Marchiori Buss

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