As Verdades Que Não Enterramos Mais

Tem encontros que não começam no abraço, mas no olhar. Naquele silêncio breve em que duas pessoas se reconhecem cansadas do mesmo mundo. Foi assim entre Clara e Laura. As duas sentadas num café de esquina, dividindo um pedaço de bolo seco e algumas décadas de história que nem sempre fizeram sentido.

Conversavam como quem já não precisa provar nada. E talvez seja esse o presente dos anos: não ter mais que explicar tanto. Só sentir e, se der, colocar pra fora.

— Lembra da primeira vez que a gente se viu? — perguntou Clara, mexendo o café já frio.

Laura lembrava. Verão, calor de derreter certezas. Curso de literatura. Clara ainda meio torta da separação, com filha pequena no colo. Ela mesma, ainda acreditando que podia viver de instinto e poesia. Tinham discutido um conto de Clarice Lispector, e Laura dissera uma frase que nunca mais saiu da cabeça da amiga:

— Às vezes, a gente não quer ser compreendida. Só quer que alguém fique.

Na época, era só bonita. Hoje, era verdade.

Entre goles e pausas, foram se confessando sem drama. Sem plateia. Só as duas.

— Me tornei uma mulher aceitável — disse Laura. — Daquelas que apagam a vela do bolo branco com sorriso contido e perguntam se podem antes de sentir.

Clara completou, com um sorriso torto:

— Eu também. Boa mãe, boa vizinha, boa professora... mas boa pra quem?

E riram. Daquelas risadas mansas, quase tímidas. Riso de quem sabe que ainda há muito por viver, mas nem tudo precisa ser vivido correndo.

Clara contou de um beijo antigo, enterrado com um poema de Drummond. De uma mulher que a fez tremer na juventude e que nunca virou história porque não coube na vida que ela escolheu viver.

— E agora? — perguntou Laura.

— Agora, eu não quero mais enterrar nada. Nem desejo, nem arrependimento. Quero viver o que der. Mesmo que dure só um café.

Saíram do café devagar, como quem pisa em terreno delicado. Os braços quase se tocando. Não disseram muito mais. Nem precisavam. Porque às vezes, o que não foi vivido direito antes... ainda pode nascer. Não como espetáculo, mas como permanência.

E isso basta.

 


Silvia Marchiori Buss

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora