Apaixonado Por Uma Voz
No edifício Solar das Laranjeiras, onde as janelas davam para varais cheios de roupa e silêncios acumulados, morava a moça mais estranha que se podia imaginar: Clara, do 102.
Não era feia. Mas também não era fácil de olhar. Alta demais, magra demais, com olhos grandes e esbugalhados, que pareciam sempre assustados com alguma coisa que os outros não viam. Caminhava como quem pede desculpas por ocupar espaço. Nunca dizia bom dia. E ainda assim... havia algo nela que não se esquecia. A voz.
Era uma voz que parecia vinda de outra época. Daquelas fitas cassete antigas que se ouvia no escuro, com fones de espuma, escondido dos pais. Tinha o peso da saudade e o charme do mistério. Rouca sem ser áspera. Doce sem ser infantil. Uma voz de entardecer, de despedida, de gente que já amou demais e aprendeu a não esperar nada. Uma voz que arrepiava sem gritar.
Trabalhava como operadora de telemarketing numa empresa chamada “Conecta Você”, onde todos viviam à beira de um colapso nervoso – menos ela. Era campeã de vendas mês após mês, sua foto pregada num mural de cortiça esverdeado, cercada de balõezinhos coloridos e frases motivacionais. Mas Clara não sorria nem para a câmera. Era como se apenas a voz existisse.
E foi por essa voz que ele se apaixonou.
Marcos, designer gráfico de embalagens de margarina, 48 anos, morador do 803, era um desses homens que vivem com mais passado do que futuro. Guardava ingressos de shows dos anos 90, tinha um toca-discos herdado do avô e um coração desabitado há quase uma década. Quando ouviu aquela voz pela primeira vez, num telefonema qualquer vendendo seguros de automóvel, algo se acendeu nele. Um calor na nuca, uma leveza no peito, uma vontade besta de fazer perguntas só pra ouvir mais.
Virou freguês. Comprou o seguro. Depois um plano de revista sobre jardinagem, embora morasse num apartamento sem varanda. Depois um curso de crochê. Um kit de facas japonesas. Uma assinatura vitalícia de uma revista que ninguém mais lia. Tudo por cinco minutos da voz dela.
— Senhor Marcos, posso chamá-lo assim? Ou prefere só Marcos?
— Chama de “teu”, se quiser — ele murmurava, bobo.
Nunca soube quem era ela. Para ele, Clara era só uma voz na linha. Uma fantasia feita de timbre. Uma mulher sem rosto que morava sabe-se lá onde.
Até que o destino, cansado de ver aquela novela ridícula, resolveu intervir.
Foi numa quinta-feira chuvosa, dessas em que o mundo parece molhado por dentro. Marcos, voltando do mercado, entrou no elevador carregando sacolas e frustrações. E lá estava ela. Casaco lilás, cabelos presos num coque torto, olhos grandes demais. E então, a voz.
— Boa noite — disse, olhando o chão.
Ele paralisou. O ar ficou espesso como sopa requentada.
— Você… trabalha na “Conecta Você”?
Ela levantou os olhos, sem pressa.
— Sim. Você é o Marcos das facas japonesas, não é?
O mundo parou por um segundo. Ele quis dizer que a amava. Que sonhava com aquela voz. Que ouvir aquilo era como entrar num quarto da infância e reencontrar o cheiro de uma avó morta. Mas só conseguiu balançar a cabeça, como um boneco quebrado.
A partir dali tudo foi se desfazendo devagar.
Tornaram-se conhecidos. Depois vizinhos íntimos. Depois quase alguma coisa. Marcos a convidava para café, para séries ruins, para silêncios confortáveis. Clara aceitava, mas sempre mantendo uma distância invisível. Conversava com ele como se falasse com um cliente – educada, cordial, mas ausente. A verdade é que, fora do telefone, Clara não sabia ser.
Um dia, ele lhe deu um gravador.
— Para guardar sua voz — disse, rindo.
Ela ficou séria.
— É só isso que você gosta em mim?
Ele quis dizer não. Quis dizer que também gostava do jeito como ela penteava os cabelos, do barulho que o chinelo fazia nos corredores, da forma como ela comia melancia com colher. Mas não disse nada.
No domingo seguinte, Clara desapareceu.
O apartamento ficou vazio. A porta, lacrada com fita. A síndica – entre uma lembrança e outra da Rádio Nacional – disse que ela partira. Largara o emprego, a cidade, o prédio. Deixara para trás apenas uma caixa, entregue por engano à portaria do 803.
Dentro, um bilhete escrito à mão:
"A voz era só o que restava de mim. Obrigada por ouvi-la com o coração."
E um gravador. Com apenas uma faixa.
Marcos escuta até hoje. Toda noite. A fita já falha em alguns trechos, o som chia, a voz oscila. Mas ainda é ela. E ele, que vive mais de saudade do que de esperança, a escuta como quem revive um amor que nunca teve corpo — só eco.
Não era feia. Mas também não era fácil de olhar. Alta demais, magra demais, com olhos grandes e esbugalhados, que pareciam sempre assustados com alguma coisa que os outros não viam. Caminhava como quem pede desculpas por ocupar espaço. Nunca dizia bom dia. E ainda assim... havia algo nela que não se esquecia. A voz.
Era uma voz que parecia vinda de outra época. Daquelas fitas cassete antigas que se ouvia no escuro, com fones de espuma, escondido dos pais. Tinha o peso da saudade e o charme do mistério. Rouca sem ser áspera. Doce sem ser infantil. Uma voz de entardecer, de despedida, de gente que já amou demais e aprendeu a não esperar nada. Uma voz que arrepiava sem gritar.
Trabalhava como operadora de telemarketing numa empresa chamada “Conecta Você”, onde todos viviam à beira de um colapso nervoso – menos ela. Era campeã de vendas mês após mês, sua foto pregada num mural de cortiça esverdeado, cercada de balõezinhos coloridos e frases motivacionais. Mas Clara não sorria nem para a câmera. Era como se apenas a voz existisse.
E foi por essa voz que ele se apaixonou.
Marcos, designer gráfico de embalagens de margarina, 48 anos, morador do 803, era um desses homens que vivem com mais passado do que futuro. Guardava ingressos de shows dos anos 90, tinha um toca-discos herdado do avô e um coração desabitado há quase uma década. Quando ouviu aquela voz pela primeira vez, num telefonema qualquer vendendo seguros de automóvel, algo se acendeu nele. Um calor na nuca, uma leveza no peito, uma vontade besta de fazer perguntas só pra ouvir mais.
Virou freguês. Comprou o seguro. Depois um plano de revista sobre jardinagem, embora morasse num apartamento sem varanda. Depois um curso de crochê. Um kit de facas japonesas. Uma assinatura vitalícia de uma revista que ninguém mais lia. Tudo por cinco minutos da voz dela.
— Senhor Marcos, posso chamá-lo assim? Ou prefere só Marcos?
— Chama de “teu”, se quiser — ele murmurava, bobo.
Nunca soube quem era ela. Para ele, Clara era só uma voz na linha. Uma fantasia feita de timbre. Uma mulher sem rosto que morava sabe-se lá onde.
Até que o destino, cansado de ver aquela novela ridícula, resolveu intervir.
Foi numa quinta-feira chuvosa, dessas em que o mundo parece molhado por dentro. Marcos, voltando do mercado, entrou no elevador carregando sacolas e frustrações. E lá estava ela. Casaco lilás, cabelos presos num coque torto, olhos grandes demais. E então, a voz.
— Boa noite — disse, olhando o chão.
Ele paralisou. O ar ficou espesso como sopa requentada.
— Você… trabalha na “Conecta Você”?
Ela levantou os olhos, sem pressa.
— Sim. Você é o Marcos das facas japonesas, não é?
O mundo parou por um segundo. Ele quis dizer que a amava. Que sonhava com aquela voz. Que ouvir aquilo era como entrar num quarto da infância e reencontrar o cheiro de uma avó morta. Mas só conseguiu balançar a cabeça, como um boneco quebrado.
A partir dali tudo foi se desfazendo devagar.
Tornaram-se conhecidos. Depois vizinhos íntimos. Depois quase alguma coisa. Marcos a convidava para café, para séries ruins, para silêncios confortáveis. Clara aceitava, mas sempre mantendo uma distância invisível. Conversava com ele como se falasse com um cliente – educada, cordial, mas ausente. A verdade é que, fora do telefone, Clara não sabia ser.
Um dia, ele lhe deu um gravador.
— Para guardar sua voz — disse, rindo.
Ela ficou séria.
— É só isso que você gosta em mim?
Ele quis dizer não. Quis dizer que também gostava do jeito como ela penteava os cabelos, do barulho que o chinelo fazia nos corredores, da forma como ela comia melancia com colher. Mas não disse nada.
No domingo seguinte, Clara desapareceu.
O apartamento ficou vazio. A porta, lacrada com fita. A síndica – entre uma lembrança e outra da Rádio Nacional – disse que ela partira. Largara o emprego, a cidade, o prédio. Deixara para trás apenas uma caixa, entregue por engano à portaria do 803.
Dentro, um bilhete escrito à mão:
"A voz era só o que restava de mim. Obrigada por ouvi-la com o coração."
E um gravador. Com apenas uma faixa.
Marcos escuta até hoje. Toda noite. A fita já falha em alguns trechos, o som chia, a voz oscila. Mas ainda é ela. E ele, que vive mais de saudade do que de esperança, a escuta como quem revive um amor que nunca teve corpo — só eco.
Silvia Marchiori Buss

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