Amores Platônicos

  Era sempre às terças-feiras que Aurora aparecia na cafeteria da esquina, entre a biblioteca municipal e a loja de molduras. Chegava com o cabelo ainda úmido da chuva, o mesmo casaco azul-marinho, os olhos procurando algo que talvez já soubesse onde estava.

Eduardo fingia não reparar, mas cada vez que ela entrava, o coração perdia o compasso. Trabalhava ali havia anos, atrás do balcão, servindo cafés e silêncios. E mesmo depois de tantos encontros calados, não sabia ao certo o que ela fazia da vida — só que gostava do café sem açúcar e sempre escolhia a mesa dos fundos, perto da parede coberta por heras.

Os dois se conheciam sem saber nomes. Nunca trocaram palavras, apenas olhares demorados e acenos quase imperceptíveis. Ele sabia que ela lia Clarice, sublinhava os trechos tristes com lápis e às vezes sorria sozinha, como quem lembra de algo que dói bonito. Ela sabia que ele limpava os balcões com cuidado, como se cada mancha tivesse uma história, e que, antes de ir embora, colocava um disco antigo para tocar, sempre o mesmo — um disco de Chico Buarque.

O tempo passou assim: feito um filme sem diálogos, feito cartas nunca escritas. O mundo lá fora mudava — governos, estações, vitrines — mas dentro daquele pequeno ritual, tudo permanecia suspenso, como se as regras da vida real não se aplicassem ali.

Houve uma terça em que ela não veio. Depois outra. E outra. Eduardo seguiu abrindo a cafeteria, colocando o disco, limpando a mesa dela com mais cuidado do que nunca. O silêncio foi crescendo até se tornar presença. Não ausência — presença. Presença de tudo o que nunca disseram. De tudo o que quase foi.

Anos depois, já velho, ao contar essa história a um neto curioso, Eduardo não disse o nome dela. Chamou-a apenas de "a mulher dos olhos quietos". E quando o menino perguntou se era amor, ele respondeu:

— Talvez tenha sido o mais puro. Porque nunca teve chance de se desgastar. Porque só viveu dentro da gente.

Silvia Marchiori Buss

 

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