Saudade e Raiva

Depois que ele se foi, ela achou que a tristeza viria primeiro. Que seria como nos filmes: lenços, lágrimas, cartas amassadas no fundo da gaveta.

Mas não foi assim.

A saudade, traiçoeira, vinha mansa demais. Vinha no cheiro do café, no jeito de dobrar as camisetas, na música que escapava da vizinha do andar de cima. Vinha silenciosa, quase educada – como um animal que se deita aos seus pés e espera.

E era justamente isso que a deixava louca. A saudade não gritava, não reclamava, não esmurrava a porta. 

Só ficava ali, olhando. Esperando que ela cedesse.

Então, para sobreviver, ela escolheu a outra coisa: a raiva.

Preferia a raiva.

Preferia esbravejar contra as canecas que ele deixou, contra os livros que nunca terminou de ler, contra a falta que ele fazia até na falta de jeito.

Preferia o soco na parede ao silêncio que pingava as horas. Preferia amaldiçoá-lo por ter ido embora primeiro – mesmo sabendo que ele não queria ir.

Era mais fácil.

A raiva ocupava espaço. Fazia barulho. Viravam palavras ditas alto dentro do carro, gritos abafados no travesseiro, corridas sem destino pela cidade adormecida.

Com a raiva, ela podia se enganar: ainda havia luta, ainda havia algo a fazer.

A saudade não.

A saudade era um aceno de longe.

Era aceitar. Era dobrar a cabeça e chorar baixo.

E ela não queria aceitar.

Talvez, um dia, ela deixasse. Talvez, um dia, sentasse no chão da sala, abraçasse a saudade como quem abraça uma sombra e dissesse:

- Tudo bem...Você venceu!

Mas não hoje.

Hoje ela preferia a raiva – quente, viva, barulhenta – para distrair o buraco gelado que a ausência cavava dentro dela.

Porque, de alguma forma torta, a raiva ainda era amor – com a pele virada para fora.

Silvia Marchiori Buss

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