Quando o Bicho Dentro Chama

Dizem que o ser humano é um animal racional. E é.
Mas, antes de qualquer razão, somos carne que pulsa, pele que anseia, ouvido que se reconhece no som de outra voz. Somos presença. Fomos moldados para o bando, para o calor da roda em volta do fogo, para o café compartilhado, para a conversa que atravessa a noite.
A solitude, sim, pode ser escolha. Mas a solidão... essa é corte que sangra no instinto.
Só que, devagar, quase sem perceber, vamos nos habituando ao eco. As casas se tornaram mudas. As ruas, desertas de encontros. As telas, espelhos que nos devolvem a imagem, mas não o toque.
Vamos nos afastando — primeiro por pressa, depois por medo — até que, um dia, abrimos a porta e já não esperamos ninguém. E, pior ainda, já não batemos em porta alguma.
É curioso: somos os inventores da palavra, os arquitetos da empatia, os que criaram a filosofia para entender o existir — e agora nos recolhemos, feito caramujos.
Trocamos o calor da pele por ícones digitais, a presença viva por frases curtas e cruas. Construímos muros para conter a dor e esquecemos que eles também barram o amor.
Enquanto isso, os ditos irracionais seguem sendo sábios à sua maneira. Um cão uiva quando só. Um pássaro canta chamando o outro. Um cavalo relincha em busca do grupo. Não falam, mas sabem: viver é também ser com.
E nós, que nos chamamos racionais, usamos a razão para justificar a fuga, o recuo, a ausência.
Mas há algo que não se cala. Lá no fundo — no fundo mais fundo — ainda mora o bicho.
E o bicho sente falta. Falta de cheiro, de voz, de pele, de laço. Falta de pertencimento.
Talvez não devêssemos nos acostumar tanto ao vazio.
Talvez devêssemos lembrar que, por trás da razão, ainda late um coração que deseja manada.
Porque viver só é possível.
Mas viver junto... ah, viver junto é o que nos devolve a humanidade.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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