O Que Sobrou Dele

A viagem era promissora. Passeios planejados, teatros marcados, jantares reservados com vista para a cidade iluminada. Na mala, roupas elegantes, sapatos de grife, perfumes finos e muitas expectativas dobradas entre os tecidos — como se fosse possível guardar a felicidade para usá-la no momento exato.

Mas o destino — esse intruso sem rosto — atravessou o caminho como um vento gelado em pleno verão. No meio da viagem, ele se foi. Como se tivesse sido abduzido por uma estrela, daquelas que riscam o céu e não voltam. Sem aviso, sem chance de despedida, sem que ela pudesse sequer tentar reescrever a cena.

Partiu.

Ficaram as roupas, ainda com o cheiro dele. Os sapatos, que não caçariam mais passos. A escova de dentes no nécessaire. Tudo arrumado, como se o tempo tivesse congelado a vida num instante anterior à morte. Tudo ali, parado. Como ele, agora — guardado para a eternidade.

Sua esposa, antes risonha e leve, voltou sozinha. Voltou com o peso de uma ausência que não coube na bagagem. Caminhou pelo aeroporto como quem carrega um corpo invisível ao lado. Entrou em casa e estacionou a mala devagar sobre a cama.

No primeiro dia, ela não abriu a mala. Olhou para ela como se fosse uma caixa de Pandora: temia que, ao destravar o zíper, escapasse tudo o que ela tentava manter dentro de si. A dor. O espanto. A certeza absurda de que era verdade. Dormiu no sofá, com a televisão ligada em volume baixo — talvez para não ouvir o próprio pensamento.

No segundo dia, sentou-se diante dela. A mala azul-marinho, discreta, como ele. Passou a mão sobre o tecido como quem acaricia uma memória. Ainda sentia o perfume dele — aquele que ele usava só em ocasiões especiais. A viagem era uma delas. Seria, pelo menos.

No terceiro dia, abriu. Uma a uma, as roupas dobradas. A camisa branca com cheiro de hotel e ternura. A gravata vinho que ela mesma escolhera. Os sapatos — lustrados, nunca usados. Chorou em silêncio, como quem rega algo que já sabe que não brota mais. E ali, entre as camisas e os trajes de passeio, encontrou um envelope.

Seu nome. Escrito à mão. A caligrafia dele.

Hesitou. Leu.

“Se eu me esquecer de dizer... que você é o motivo da maioria dos meus sorrisos. Que essa viagem era mais por nós do que por mim. Que, mesmo que um dia o tempo me leve, você é a casa onde eu sempre quis morar.
Se eu esquecer... por favor, lembre por mim.”

Ela apertou o papel no peito como se pudesse, naquele gesto, trazer de volta o calor que se fora.

Não havia consolo. Mas havia presença. Uma outra presença — invisível, mas constante.

Desde então, ela deixou a mala aberta, num canto do quarto. Não como relíquia, mas como lembrança viva. Um pequeno altar daquilo que foi. E que, de algum modo, ainda era.

No jantar, às vezes, ela colocava um prato a mais. No cinema, comprava dois ingressos. No coração, nenhuma mala se fechava por completo.

Porque o que sobrou dele não cabia em malas.
Era o que ainda sobrava nela.


Silvia Marchiori Buss

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